terça-feira, 28 de setembro de 2010

Em Busca do El Dorado

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O termo Eldorado significa "O Dourado" em espanhol;é uma lenda que iniciou-se nos anos 1530 com a história de um cacique ou sacerdote dos muíscas,indígenas da Colômbia,que se cobria com pó de ouro e mergulhava em um lago dos Andes.
Inicialmente um homem dourado,índio dourado,ou rei dourado,foi depois fantasiado como um lugar,o reino ou cidade desse chefe legendário,riquíssimo em ouro.
Embora os artistas muíscas trabalhassem peças de ouro,algumas das quais hoje formam o rico acervo do Museu do Ouro de Bogotá,nunca foram encontradas entre eles grandes minas,muito menos as cidades douradas sonhadas pelos conquistadores que pretendiam repetir a façanha de Francisco Pizarro no Peru. Tudo indica que os muíscas ou chibchas obtinham o ouro por meio de trocas com indígenas de outras regiões.
Sedentos por mais ouro,os conquistadores espanhóis fizeram o mito migrar para leste,para os Llanos da Venezuela e depois para além,no actual estado de Roraima ou nas Guianas.Na forma tomada pelo mito a partir do final do século XVI,a cidade dourada,agora conhecida como Manoa,se localizaria no imenso e imaginário lago Parima e teria sido fundada ou ocupada por incas refugiados da conquista de Pizarro.
Alguns dos locais que se diz ser o Eldorado...

O Eldorado de Paititi;

O mito é semelhante ao de Paititi ou Candire,que também seria uma cidade cheia de riquezas que teria servido de refúgio a incas que escaparam da conquista espanhola, mas costuma ser localizada muito mais ao sul,entre as selvas da Bolívia e Peru ou no Brasil, o Acre,Rondónia ou Mato Grosso.Os dois mitos têm origem comum no sonho de conquistadores de enriquecer repetindo a façanha de Francisco Pizarro,o conquistador dos incas e influenciaram-se mutuamente,mas o de Paitíti associou-se,em tempos mais recentes,com a nostalgia de povos andinos pelo antigo Império Inca,ganhando conotações nativistas.

O Eldorado de Colômbia;

Houve pelo menos duas tentativas de drenar o lago Guatavita em busca do suposto tesouro.A primeira foi em 1578, quando o mercador espanhol Antonio de Sepúlveda conseguiu uma licença do governo espanhol. Escavou um canal e conseguiu baixar o nível do lago em alguns metros,mas encontrou apenas dez onças de ouro.
Em 1801,Alexander von Hulboldt estudou o lago e mencionou-o em seus relatos, comentando que se a lenda fosse verdadeira, poderia conter centenas de milhões de libras em ouro.Sua especulação voltou a incendiar a imaginação de caçadores de tesouros e em 1825, o capitão Charles Stuart Cochrane,filho do Almirante Cochrane que comandou a frota chilena na guerra da independência,publicou um livro no qual dizia que ali devia existir ouro e pedras preciosas no valor de £ 1.120.000.000.Em 1898,foi formada a 'Company for the Exploitation of the Lagoon of Guatavitá',que dois anos depois transferiu seus direitos à firma franco-britânica 'Contractors Ltd.',com sede em Londres e cotada na Bolsa de Londres.
A empresa passou oito anos construíndo um túnel para esvaziá-lo a partir do centro, mas quando o leito do lago foi exposto,o fundo tinha metros de lama e limo,que tornavam impossível caminhar sobre ele.No dia seguinte,o sol cozeu a lama e lhe deu uma consistência de cimento, tão dura que não pdia ser penetrada.A lama endurecida bloqueou as eclusas,o túnel foi selado e o lago voltou a se encher até o nível anterior. oram encontrados objectos no valor de £ 500 que foram leiloados na Sotheby's,mas a empresa faliu sem recuperar o investimento de £40.000 e a 'Company for the Exploitation of the Lagoon of Guatavitá' foi dissolvida em 1929. Outras sondagens foram tentadas com dragas e brocas até que,em 1965,o governo colombiano pôs o lago Guatavitá sob protecção legal, proibindo novas tentativas.
O lago Guatavita parece ter sido um centro cerimonal importante para a iniciação dos jovens que seriam coroados zipas ou reis de Bacatá (actual Bogotá),mas a origem da lenda pode ser a lagoa de "Siecha"(Casa do Homem,em muísca) perto da pirâmide do Sol,a 35 quilómetros de Guatavita.Ali foi de facto encontrada,em 1856,uma peça de ouro de 262 gramas,com a forma de uma balsa redonda com 9,5 cm de diâmetro,que parecia representá-lo.Revelada ao mundo em 1883 por Liborio Zerda,no livro El Dorado,foi comprada por um museu alemão,mas perdeu-se quando o navio que a transportava incendiou-se no porto de Bremen.

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Uma segunda peça muito semelhante foi,encontrada em 1969,por três camponeses, dentro de um vaso de cerâmica,numa pequena gruta da campina de Pasca,Cundinamarca.Encontra-se hoje no Museu do Ouro de Bogotá e é sua peça mais famosa.Conhecida como "Balsa de El Dorado",pesa 287,5 gramas,tem 19 cm de comprimento por 10 de largura e altura e contém uma figura maior cercada de doze menores.

O Eldorado na Guiana;

Em 1584 o espanhol Antonio de Berrio partiu de Tunja(Colômbia)com a intenção de explorar o interior das Guianas e em 1590,na região do Orinoco,indígenas disseram-lhe que a sete dias dali havia "uma infinita quantidade de ouro",cujas minas eram reservada aos caciques e ás suas mulheres,embora qualquer um pudesse extrair ouro dos riachos.Não alcançou,porém,as regiões em que os indígenas diziam estar localizado o lago Manoa,no outro lado das montanhas Pacaraima(Manoa, na língua Achaua significava "lago").
O relato da exploração foi redigido pelo lugar-tenente Domingo Vera,que teria feito acréscimos para suscitar a cobiça dos superiores,juntando à sua narrativa supostas revelações de um certo Juan Martínez,sobrevivente da expedição de Diego de Ordaz que teria vivido na capital de Eldorado.Martínez,tendo cometido uma falta grave,teria sido condenado à morte,condenação comutada,pela comiseração dos companheiros,no abandono do culpado numa canoa.Segundo a versão contada mais tarde por Walter Raleigh:

Essa canoa foi levada pela corrente e encontrada flutuando por selvagens da Guiana, que nunca antes haviam visto um cristão.Eles levaram Martínez de de um lado para o outro, para que fosse visto como uma maravilha e levaram-o em seguida a Manoa,que é a capital do Império dos Incas.O Rei,que o viu,reconheceu-o primeiramente como cristão e espanhol; porque não fazia muito tempo que os irmãos Guascar(Huáscar) e Atabaliba(Atahuallpa)estavam mortos e que Pizarro tinha destruído seu império.Ele recebeu Martínez bastante bem,embora não houvesse esquecido a crueldade dos espanhóis.
Durante as festas dos guianeses,contava a narrativa de Martínez,"os servos untam os corpos dos notáveis com um bálsamo branco chamado curcay e os recobrem de pó de ouro,que sopram por meio de caniços,até que estejam brilhando da cabeça aos pés".Há ouro por toda a parte:na cidade,nos templos,sob forma de ídolos,de placas,de armaduras e de escudos.Sua capital era a cidade de Manoa,construída nas margens do lago Parima(ao qual inicialmente se tinha dado o nome de "Manoa"),ou "Parime",como o chamariam os ingleses.
Uma expedição militar inglesa apossou-se dos documentos de Berrio e comunicou-os à corte britânica,chegando então aos ouvidos do explorador e aventureiro inglês Walter Raleigh.Em 1594,conduziu a sua própria exploração pelo Orinoco até o interior da atual Guiana venezuelana.Encontrou apenas uns poucos objectos de ouro e indícios de minério,mas que lhe bastaram para escrever um livro,com um Relato da Grande e Dourada Cidade de Manoa,que os Espanhóis chamam El Dorado,com o qual se ampliou e popularizou a lenda.
Raleigh encontrou no porto de Morequito,às margens do Orinoco,um certo Topiawari, idoso cacique dos aromaias,cujo sobrinho,o anterior cacique,havia sido assassinado pelos espanhóis.O inglês disse-lhe que vinha protegê-lo dos espanhóis em nome da rainha Elizabeth I e perguntou-lhe sobre como chegar à Guiana que tem ouro e aos incas.O velho lhe respondeu que não podia chegar à cidade de Manoa com os meios que dispunha naquele momento e se quisesse,ele e seu povo o ajudariam,mas precisaria da ajuda de todos os povos que eram inimigos do império para obter guias e suprimentos. Recordou-lhe que 300 espanhóis haviam sido vencidos nas planícies de Macureguarai e não haviam conquistado a amizade de nenhum povo da região. Havia 4 dias de viagem até
Macureguarai onde habitavam os súbditos mais próximos do Inca e os Epuremeis,que é a primeira cidade onde vive gente rica que usa roupas fabricadas e de onde provinham essas placas de ouro que se viam aqui e ali entre os povoados fronteiriços e que eram exportadas para toda parte.Mas aquelas produzidas no interior das terras eram muito mais belas e representavam homens,animais,pássaros e peixes.
O cacique explicou que havia guerra entre o povo fronteiriço ao seu território e os epuremeis,haviam-lhe roubado as mulheres.Queixou-se de que antes tinham dez ou doze mulheres e agora tinham de se contentar com três ou quatro,enquanto os senhores de Epuremei tinham 50 ou 100.Um homem do séquito de Topiawari disse a Raleigh que se o acompanhassem,deveriam repartir o saque:"para nós as mulheres,para vocês,o ouro".
Topiawari disse-lhe que o ouro não provinha de veios,mas do lago de Manoa e de muitos rios.Que misturam o ouro com cobre para que o possam trabalhar,fundem-no em vasilhas de barro com furos,metem-no em moldes de pedra ou argila e assim fabricam placas e imagens.Mencionou várias nações inimigas dos incas,entre elas os ewaipanomas.Disse que os epuremeis tinham a mesma religião dos incas.Apesar da distância do Peru,Topiawari sabia que os espanhóis encontraram os maiores tesouros entre os incas.Raleigh ficou convencido de que Manoa existia,mas não tinha meios suficientes para encontrá-la e esceveu seu livro para tentar convencer a corte inglesa.
Preso em 1603 por suposto envolvimento em uma conspiração contra o rei Jaime I,Raleigh foi libertado em 1616 para conduzir uma nova expedição ao Eldorado, que não teve sucesso,mas saqueou um posto avançado espanhol.Ao retornar,foi executado com base nas acusações anteriores e para apaziguar os espanhóis.
Raleigh acreditava que o Eldorado situava-se no vasto Lago Parima,que mapas da época situavam-no no interior da Guiana,aproximadamente,onde hoje,se situa o Estado de Roraima.Este lago,que nunca existiu,está presente na maioria dos mapas dos séculos XVII e XVIII e até em alguns mapas do início do século XIX,quando desaparece e é substituído pelo "Rio Parima",na região dos Tepuís do Monte Roraima.
Os responsáveis por seu definitivo desaparecimento foram o geólogo prussiano Friedrich Alexander von Humboldt e o botânico francês Aimé Bonpland,que viajaram entre o Orinoco e o Amazonas em 1800,em busca das nascentes do Caroni,que encontraram junto a uma pequena aldeia chamada Esmeralda,demonstrando a inexistência do famoso lago Parima.


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Ressurgimento da Lenda;

No livro "Uma Luz nos Mistérios Amazónicos"(Manaus, 1994),o pintor chileno Roland W. Vermehren Stevenson, morador de Manaus,ressuscitou a lenda do lago Parima.Afirmou ter descoberto vestígios de um caminho pré-colombiano extinto da bacia de Uaupés a Roraima,com restos de construções de pedra,pelo qual os incas teriam trazido ouro no lombo de lhamas e também ter identificado o que já foi o lago do El Dorado,Manoa ou Parima,que seria a chamada região de campos ou lavrado de Boa Vista,desprovida de selvas,onde apenas há árvores (buritis) mas margens de lagoas,rios e igarapés.
Ali teria existido o lendário lago,localizado entre Roraima e a antiga Guiana inglesa,com um diâmetro de 400 quilómetros e área de 80 mil quilómetros quadrados e a sua extinção teria começado há cerca de 700 anos.Segundo Stevenson,a cidade de Manoa localizava-se na região ocidental do lago,conforme o indicavam as primeiras cartografias das expedições,a exemplo de Hariot,que desenhou-a vizinha a uma ilha de terra firme.O local exacto seria a ocidente do que hoje chamamos ilha Maracá,onde na época do lago cheio estaria a foz do rio Uraricuera.
Lendas á parte,o facto é que nunca se descobriu a Lendária "El Dorado" e talvez nunca se vislumbre tão desejada cidade...

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