quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Houve No Vaticano Um Papa Mulher?

Itália

A Papisa Joana teria sido a única mulher a governar a Igreja durante dois ou três anos,segundo uma lenda(que parece ter factos encontrados,um dos quais um quadro escondido...)que circulou na Europa por vários séculos.É considerada por alguns dos historiadores modernos e estudiosos religiosos como fictícia,possivelmente originada numa sátira anti-papal.Mas será mesmo,ou é um dos segredos do Vaticano mais bem escondidos???

A Papisa Joana;

A História teve origem no final do século IX,mas outros situam o papado de Joana até dois séculos e meio antes,depois da morte do Papa Leão IV,coincidindo com uma época de crise e confusão na diocese de Roma.Segundo um cronista do século XIII,Joana ocupou o cargo durante dois ou três anos,entre o Papa Leão IV e o Papa Bento III (anos de 850 e 1100).
Numa vida tão extraordinária como a de Joana devemos mencionar todos os acontecimentos que nos foram transmitidos pelos historiadores e entrar em detalhes nas ações dessa mulher notável.
Eis a versão de Mariano Scotus sobre o nascimento da papisa:"Em princípios do nono século,Karl,o Grande,depois de ter subjugado os Saxónios,empreendeu a conversão desses povos ao cristianismo e pediu à Inglaterra padres eruditos que o pudessem auxiliar nos seus projetos.No número de professores que passaram à Alemanha contava-se um padre inglês acompanhado de uma jovem que,estando grávida,roubara à sua família para ocultar esse estado.Os dois amantes foram obrigados a interromper a sua viagem e a parar em Mayence,onde em breve a jovem inglesa deu à luz uma filha cujas aventuras deviam ocupar um dia os séculos futuros;essa criança era Joana."

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Não se conhece com exatidão o nome que ela usou na sua infância;a filha do padre inglês é igualmente chamada Agnés por alguns autores.Gerberta ou Gilberta por outros e,finalmente Joana pela maioria.O jesuíta Sevarius pretende que lhe chamem também Isabel,Margarida,Dorotéia e Justa.Não sabemos acerca do sobrenome que ela adoptou. Asseguram uns que ela acrescentava ao seu nome a designação de Inglês;querem outros juntá-lo ao nome de Gerberta,e um autor do décimo quarto século chama-lhe de Magnânima na sua crónica,para exprimir certamente a ousadia e a temeridade de Joana, à imitação de Ovídio,que se serve da expressão "Magnanimus Phaethon".
Esses mesmos autores apresentam menos contradições relativamente ao lugar do seu nascimento:pretendem alguns que ela nascera na Grã Bretanha,outros designam Mayence, outros finalmente Engelkein,cidade do Palatinado,célebre pelo nascimento de Carlos Magno.Mas o maior número reconhece que Joana era de origem inglesa,que foi educada em Mayence e que nasceu em Eugelkein,aldeia situada na vizinhança daquela cidade.
Joana tornara-se uma formosa rapariga e o seu espírito,cultivado pelos cuidados de um pai muito instruído,tomara um desenvolvimento tal que todos os doutores que se aproximavam dela ficavam admirados pelas suas respostas.A admiração que ela inspirava aumentou ainda pela ciência,e aos doze anos a sua instrução igualava-se à dos homens mais distintos do Palatinado.Todavia,quando chegou a idade em que as mulheres começam a amar,a ciência foi insuficiente para satisfazer os desejos daquela imaginação ardente e o amor mudou os destinos de Joana.
Um jovem estudante de família inglesa e frade da abadia de Fulde foi seduzido pela sua beleza e apaixonou-se loucamente por ela."Se ele a amou com extremo,diz a crónica,Joana,pelo seu lado,não foi nem insensível nem cruel". encida pelos protestos e arrastada pelas inspirações do seu coração,Joana consentiu em fugir da casa paterna com o seu amante.Deixou o seu nome verdadeiro,vestiu-se de homem e seguiu o jovem abade para a abadia de Fulde,onde o superior,enganado com aquele disfarce,recebeu Joana no seu mosteiro e colocou a sob a direção do sábio Raban Maur.
Algum tempo depois,o constrangimento em que se achavam os dois amantes fez lhes tomar a determinação de saírem do convento e irem para a Inglaterra continuar os seus estudos.Em breve tornaram-se os maiores eruditos da Grã Bretanha e resolveram visitar novos países a fim de observarem os costumes dos diferentes povos e estudar-lhes as linguas.
Em primeiro lugar visitaram a França,onde Joana,debaixo sempre do hábito monacal, disputou com os doutores franceses e excitou a admiração de personagens célebres da época,como a famosa duquesa de Septimania,Santo Auscario,o frade Bertram e o abade Lopo de Ferrière.Depois dessa primeira viagem os dois amantes empreenderam visitar a Grécia;atravessaram as Gálias e embarcaram em Marselha num navio que os conduziu á capital dos helenos,a antiga Atenas,que era o foco mais ardente das luzes,o centro das ciências e das belas letras,possuindo ainda escolas e academias citadas em todo o universo pela eloquência dos seus professores e pelo profundo saber dos seus astrónomos e dos seus fisicos.
Quando Joana chegou a esse magnífico país tinha vinte anos e achava-se em todo o esplendor da sua beleza.Porém,o hábito monástico ocultava o seu verdadeiro sexo de todos os olhares,e o seu rosto,empalidecido pelas vigílias e pelo trabalho,dava-lhe ares de um formoso adolescente ao invés de uma mulher.
Durante dez anos os dois ingleses viveram sob o formoso eco da Grécia, cercados de todas as ilustrações científicas e prosseguindo os seus estudos em filosofia, teologia,letras divinas e humanas,artes e história sagrada e profana.Joana aprofundara,compreendera e explicara tudo,juntando seus conhecimentos universais a uma eloquência prodigiosa que enchia de admiração aqueles que eram admitidos a ouvi-la.
No meio dos seus triunfos,Joana foi ferida por um golpe terrível:o companheiro dos seus trabalhos,o seu amante querido,aquele que durante muitos anos estivera junto dela,foi atacado por uma enfermidade súbita e morreu em poucas horas,deixando-a só e abandonada na Terra.
Joana tirou do seu próprio desespero uma nova coragem,venceu a sua aflição e resolveu sair da Grécia.Além disso,era-lhe impossível ocultar por mais tempo o seu sexo num país onde os homens usavam barbas crescidas,escolhendo Roma como o lugar de seu retiro,porque lá o uso ordenava aos homens não usarem barba.Talvez não fosse este únicamente o motivo que determinou a sua preferência pela cidade santa,mas o estado de agitação em que se achava então a capital do mundo cristão podia oferecer à sua ambição um teatro mais vasto do que a Grécia.
Logo que chegou á cidade santa.Joana fez-se admitir na academia a que chamavam escola dos gregos para ensinar as sete artes liberais e,particularmente,a retórica. Santo Agostinho tornara já muito ilustre aquela escola e Joana aumentou-lhe a reputação.Não somente continuou os seus cursos como também introduziu outros de ciências abstratas que duravam três anos,onde um imenso auditório admirava o seu prodigioso saber.As suas lições,os seus discursos e mesmo os seus improvisos eram feitos com uma eloquência tão arrebatadora que o jovem professor era citado como o mais belo génio do século,e que,na sua admiração,os romanos conferiam-lhe o título de "Príncipe dos Sábios".
Os senhores,os padres,os monges e sobretudo os doutores honravam-se de serem seus discípulos.“O seu procedimento era tão recomendável como os seus talentos;a modéstia dos seus discursos e das suas maneiras,a regularidade dos seus costumes e sua piedade,como diz Mariano brilhavam como uma luz aos olhos dos homens.Por isso,no tempo em que a saúde vacilante de Leão IV permitia aos padres forjarem intrigas e cabalas,um partido poderoso declarou-se por ela e publicou altamente pelas ruas da cidade que só ela era digna de ocupar o trono de S. Pedro.

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E com efeito,depois da morte do papa,os cardeais,os diáconos,o clero e o povo elegeram-na por unanimidade para governar a Igreja de Roma!!!Joana foi ordenada na presença dos comissários do Imperador,na basílica de São Pedro,por três bispos.Em seguida,tendo revestido as vestes pontificais,dirigiu-se acompanhada de um imenso cortejo ao palácio patriarcal e assentou-se na cadeira apostólica.
Por muito tempo os padres discutiram a seguinte e importante questão:Joana foi elevada ao santo ministério por uma arte diabólica ou por uma direção particular da Providência?Uns pretendem que a Igreja deve sentir uma grande humilhação por ter sido governada por uma mulher.Outros sustentam,pelo contrário,que a elevação de Joana à Santa Sede,longe de ser um escândalo devia ser glorificada como um milagre de Deus,que permitiu que os romanos procedessem à sua eleição para revelar que haviam sido arrastados pela influência maravilhosa do Espírito Santo.
Joana foi elevada à suprema dignidade da Igreja e exerceu a autoridade infalível de vigário de Jesus Cristo com tão grande sabedoria que se tornou a admiração de toda a cristandade.Conferiu ordens sagradas aos prelados,aos padres e aos diáconos; consagrou altares e basílicas;administrou os sacramentos aos fiéis;permitiu aos arcebispos,abades e príncipes que beijassem seus pés;e,finalmente,desempenhou com honra todos os deveres dos pontífices.Compôs prefácios de missas e grande número de canones,os quais foram interditos pelos seus sucessores.Além disso,dirigiu com grande habilidade os negócios políticos da corte de Roma e foi por conselhos seus que o Imperador Lotário,já muito velho,decidiu-se a abraçar a vida monástica e retirou-se para a abadia de Prum a fim de fazer penitência dos crimes com que manchou a sua longa carreira.Em favor do novo monge,a papisa concedeu à sua abadia o privilégio de uma prescrição de cem anos,cujo ato é mencionado na coleção de Graciano.O Império passou em seguida para Luis II,que recebeu a coroa imperial das mãos de Joana.
Contudo,essa mulher,que inspirava um tão grande respeito aos soberanos da Terra,que subjugava os povos às suas leis,que atraía a veneração do universo inteiro pela superioridade de suas luzes e pela pureza da sua vida,iria em breve quebrar o pedestal da sua grandeza e espantar Roma com o espetáculo de uma queda terrível!

A Queda de Joana;

No princípio de seu pontificado praticou virtudes que lhe mereceram o respeito e afeição de todos os romanos.Posteriormente,ou por propensão irresistível ou porque a coroa tenha o privilégio de perverter os mais belos caráteres,Joana entregou-se aos gozos do poder soberano e quis partilhá-los com um homem digno do seu amor.Escolheu um amante,assegurou-se da sua discrição,encheu-o de honras e de riquezas, guardando tão bem o segredo de suas relações que só por conjecturas se podia descobrir o favorito da papisa.
Alguns autores pretendem que ele era camareiro;outros asseveram que era conselheiro ou capelão;o maior número afirma que era cardeal de uma igreja de Roma.Todavia,o mistério dos seus amores permaneceria coberto por um véu impenetrável sem a catástrofe terrível que pos termo às suas noites de voluptuosidade.A natureza zombava de todas as previsões dos dois amantes:Joana estava grávida!
Na época das Rogações,que correspondia à festa anual que os romanos chamavam Ambarralia,onde havia uma procissão solene,a papisa,segundo o uso estabelecido, montou acavalo e dirigiu se à igreja de São Pedro.A papisa,revestida com os ornamentos pontificais,saiu da catedral e dirigiu se à basílica de São João de Latrão com um pomposo séquito que a precedia pela cruz e pelas bandeiras sagradas,e seguida pelos metropolitanos,bispos,cardeais,padres,diáconos,senhores,magistrados e por uma grande multidão do povo.
Tendo chegado à praça pública entre a basílica de São Clemente e o anfiteatro de Domiciano,chamado Coliseu,assaltaram-na as dores do parto com tal violência que caiu do cavalo.A infeliz retorcita-se pelo chão com gemidos horríveis,até que, conseguindo rasgar os ornamentos sagrados que a cobriam,no meio de convulsões tremendas e na presença de uma grande multidão,a papisa Joana deu a luz uma criança!
A confusão e a desordem que esta aventura escandalosa causou entre o povo exasperou a tal ponto os padres que estes impediram que a socorressem e,sem consideração pelos sofrimentos atrozes que a torturavam,cercaram-na para ocultá-la de todos os olhares e ameaçaram-na com a sua vingança.
Joana não pôde suportar o excesso de sua humilhação e a vergonha de ter sido vista por todo o povo numa situação tão terrível.Fez,assim,um esforço supremo para dizer o último adeus ao cardeal que a amparava nos braços.
Desta forma,morreu a papisa Joana,no dia das Rogações,em 855.,depois de ter governado a igreja de Roma durante mais de dois anos.
A criança foi sufocada pelos padres que cercavam a mãe,mas os romanos,em memória do respeito e da dedicação que durante tanto tempo haviam consagrado a Joana, consentiram em prestar-lhe os últimos deveres e,sem pompa,colocaram o cadáver da criança no seu túmulo.Joana foi enterrada no mesmo lugar onde sucedera aquele trágico acontecimento.
Ali se edificou uma capela,ornada com uma estátua de mármore representando a papisa vestida com hábitos sacerdotais,com a tiara na cabeça,tendo nos braços uma criança. O pontífice Bento III mandou quebrar essa estátua nos fins do seu reinado,mas as ruínas da capela viam-se ainda em Roma no décimo quinto século.

Exclusão da Lista dos Papas;

Os ultramontanos,confundidos pelos documentos autênticos da história e não podendo negar a existência da papisa Joana,consideraram toda a duração do seu pontificado como uma vagatura da Santa Sede e fazem suceder a Leão IV o papa Bento III,sob o pretexto de que uma mulher não pode desempenhar as funções sacerdotais,administrar os sacramentos e também conferir ordens sagradas.Mais de trinta autores eclesiásticos alegam este motivo para não incluirem Joana no número dos papas;mas um fato essencialmente notável vem dar um desmentido formal à sua opinião;

Em meados do décimo quinto século,tendo sido restaurada a catedral de Sienna por ordem do príncipe,mandou-se esculturar em mármore os bustos de todos os papas até o Pio II,que reinava então,e colocou-se no lugar da papisa o seu próprio retrato, entre Leão IX e Bento III,com o nome de "João VIII, papa mulher”.Este fato importante autorizaria a contar Joana como o centésimo oitavo pontífice que teria ornado a Igreja.
Existem muitas controvérsias sobre esta história.Alguns historiadores tornaram-se partidários de sua veracidade,outros contestaram-na como pura invenção.
Alguns céticos afirmam que o mito pode ter surgido em Constantinopla, devido ao ódio da Igreja Ortodoxa contra a Igreja Católica. O objetivo seria desmoralizar a igreja rival.
Um dos sinais mais interessantes da existência de Joana é um decreto publicado pela corte de Roma,proibindo que se colocasse Joana no catálogo dos papas:«Assim, acrescenta o sensato Launay,não é justo sustentar que o silêncio que se lançou sobre essa história,nos tempos imediatamente posteriores ao acontecimento,seja prejudicial à narrativa feita mais tarde.É verdade que os eclesiásticos contemporâneos de Leão IV e de Bento III,por um zelo exagerado pela religião,não falaram nessa mulher notável;mas os seus sucessores,menos escrupulosos,descobriram afinal o mistério…»

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