quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Os Enigmas das Catedrais

Mitologia

Joseph Campbell(o famoso mitólogo)dizia que “um templo é uma paisagem da alma.Ao entrar numa catedral,você penetra num mundo de imagens espirituais.É o ventre materno.”Campbell era fascinado por catedrais,principalmente pela catedral da pequena cidade francesa de Chartres,que ia com regularidade.Ele dizia ainda que“a catedral me fala a respeito da estrutura espiritual do mundo.É um lugar de meditação,é só caminhar ao redor,é só ficar sentado,é só olhar para todas aquelas belezas.”

Misterios

As Catedrais e Castelos de estilo Gótico fascinam pela sua grandiosidade e riqueza de detalhes.Diante de Chartres,Notre Dame de Paris,Amiens,Colónia ou o Duomo de Milão,o olhar se eleva e acompanha as delgadas agulhas que apontam para o infinito, como um lembrete místico do destino maior do homem.E,ao transpor o grandioso pórtico central,a respiração fica suspensa.A luz,filtrada por vitrais coloridos,envolve a nave numa atmosfera de tranqilidade e convida à meditação.É impossível não lembrar a reverência com que os antigos druidas(sacerdotes celtas)penetravam nas florestas, espaços sagrados que imaginavam povoados pelos espíritos da natureza.E,apesar de questionável,também é tentador pensar que,ao se converter ao cristianismo, aqueles filhos do druidismo tenham visto na arquitetura gótica um meio de recriar suas florestas sagradas.
Surgido no início do milénio,no norte da França,um antigo território celta,o estilo gótico rapidamente se espalhou pela Itália,Portugal,Alemanha,Inglaterra,Espanha e Áustria,tornando-se o produto arquitetónico mais autêntico da Idade Média.Para os ocultistas,desvendar seus mistérios corresponde a uma iniciação nos ensinamentos mais sagrados das grandes tradições da humanidade.A Cabala,a Alquimia,a Astrologia, os ensinamentos druídicos e os principais fundamentos da teologia cristã encontram expressão nesses sunptuosos marcos de pedra,cuja leitura exige uma boa dose de conhecimento esotérico e também uma apurada capacidade de enxergar além da realidade.
O mistério começa na própria origem das técnicas que permitiram sua construção.Até o surgimento das catedrais góticas,as igrejas eram erguidas seguindo os princípios românicos cuja base está no alicerce e todo o peso se apóia nas paredes,que,por isso,são muito largas.Ao transferir essa sustentação para as abóbadas(portanto,para o tecto),o Gótico inverteu a regra básica de construção da época.“Tal inversão coincidiu com a volta dos primeiros templários da Terra Santa,o que permite estabelecer uma ligação entre os factos,principalmente se lembrarmos que esses nobres tiveram acesso a todo o conhecimento reunido na biblioteca do rei Salomão. Além disso,eram iniciados nos mistérios Gregos e Egípcios,de onde tiraram a noção da"Divina Proporção”.A Divina Proporção se baseia no número 0,618,representado pela letra Grega Pi.Está presente nas pirâmides egípcias,na escola musical e nas catedrais góticas,particularmente em Chartres e Notre Dame de Paris,ambas na França, que formam triângulos equiláteros(pitagóricos),cujas medidas são sempre proporcionais a 0,61 metro.

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Difícil acreditar que esse jogo de formas seja casual,pois desde sua origem,a geometria sempre esteve de mãos dadas com a magia,e muitos dos seus símbolos foram adoPtados para exprimir conceitos esotéricos,como o triângulo,que,entre outras coisas,é um emblema da Trindade Cristã.Esse tipo de associação com o sagrado transformou várias figuras geométricas em egrégoras(centros de energia)de grande poder,capazes de agir sobre o inconsciente do homem,despertando-lhe a energia interior.
Outro efeito subtil,mas intencional,do estilo Gótico é a sensação de êxtase que ele provoca.“Enquanto as igrejas românicas eram escuras,lembrando cavernas,as catedrais Góticas são exuberantes,convidam a olhar para o alto e dão um sentido ascensional ao acto de estar numa igreja”,diz o teólogo Edmundo Pellizari.Na sua interpretação,as igrejas românicas traduzem a influência dos elementos terra e água,fazendo o homem voltar-se para dentro de si mesmo.Já o Gótico é um símbolo da verticalização da fé e convida a uma união com o divino. Seus elementos seriam o fogo e o ar – purificação iniciática e elevação espiritual,que se expressam em vitrais e torres,“Sem falar nas cores das rosáceas(vitrais circulares,geralmente localizados sobre o pórtico central),em que o vermelho se destaca.A intenção era que, durante as Vésperas e na Hora Mariana(horários canónicos correspondentes a 6 e 18 horas),a luminosidade filtrada criasse a sensação de um incêndio,verdadeiro fogo iniciático”,completa Pellizari.
Consideradas umas espécies de talismãs do cristianismo,as rosáceas são a principal fonte de entrada de luz no interior das catedrais góticas.Geralmente,há duas delas nas laterais e outra,a principal,sobre o pórtico central, marcando a fronteira entre o sagrado e o profano.Também os alquimistas dão grande importância a esse elemento da arquitetura gótica.E,até o final da Idade Média,a rosácea central era chamada de A Roda,que,na alquimia,simboliza o tempo necessário para o fogo agir sobre a matéria,transmutando-a.Visão reforçada pelo esquema de incidência de luz sobre elas. A rosácea da lateral esquerda,por exemplo,nunca é iluminada pelo sol.Representa, por isso,a cor negra,que é a matéria em seu estado bruto,a morte.Já a da direita ilumina-se com o sol do meio-dia e irradia uma luminosidade branca,que é a cor do iniciado que acaba de abandonar as trevas.Finalmente,a rosácea central,ao receber a luz do pôr-do-sol,parece incendiar-se e banha o templo com um tom rubro,sinónimo da perfeição absoluta,da predominância do espírito sobre a matéria.Há,ainda,uma terceira corrente de pensadores que compara as rosáceas a flores,símbolos da pureza, da castidade e do feminino,que cultuou a Virgem Maria.
A Braileira Marília Accioly,uma estudiosa da alquimia,lembra,que a nave central dessas construções sempre aparece ligada a ortotenias:“São veios de energia telúrica,que se unem a campos de radiação cósmica,negativos ou positivos.E só por meio da radiestesia é possível identificar onde os veios positivos predominam.É fácil deduzir,então,que os construtores Góticos,assim como os druidas,conheciam as técnicas de radiestesia”.Marília acrescenta,ainda,que cada uma das catedrais Góticas funciona como um centro psíquico da Terra,seguindo um mapeamento feito pelo pensador católico Bernard Clairveaux,fundador da Ordem Cisterciense,dos monges beneditinos.
Além disso,a maioria delas fica próxima de antigos menires(pedras sagradas)ou de montes,elevações que os antigos filósofos Gregos consideravam como centros de energia,omphalós(umbigo)do mundo.noutras palavras,pontos primordiais,de onde tudo se origina e para onde tudo retorna.
Todas as catedrais possuem umas marcas que representam geralmente instrumentos de trabalho estilizados como martelos e compassos,e eram um tipo de identificação profissional que o mestre-de-obras usava para controlar o trabalho de cada um.Todo artesão possuía uma marca própria,que passava de pai para filho,de mestre para discípulo,e a repetia sempre,em todo lugar onde trabalhasse.Em função de guerras, pestes e outros flagelos,muitas vezes as obras das igrejas ficavam temporariamente interrompidas,e os trabalhadores viajavam,oferecendo os seus serviços em outras cidades e países.Ganharam,assim,o nome de maçons,ou pedreiros livres,cujas associações acabaram resultando na Maçonaria.Mas esta,embora detenha antigos conhecimentos esotéricos,se consolidou como ordem iniciática apenas em 1792.
Uma curiosidade do cristianismo medieval é que,com excepção do peixe,a maioria dos outros animais eram considerados funestos,embora fosse comum encontrá-los nas catedrais góticas.Dessa fauna maldita faziam parte o dragão e o grifo,figura mitológica meio leão,meio pássaro (invólucros do demónio),o cavalo(usado pelas forças das trevas),o bode(luxúria),a loba(avareza),o tigre(arrogância),o escorpião (traição),o leão(violência),o corvo(malícia),a raposa(heresia),a aranha(o diabo),os sapos(pecados)e até a avestruz(impureza).
Mas a figura mais temida na fauna que povoava o imaginário medieval era o Bafomé, que aparece com destaque na porta de todas as igrejas Góticas.Metade homem,metade bode,por muito tempo foi confundido com o demónio cristão.Mas o seu sentido é bem outro,como explica Victor Franco:“O Bafomé é um símbolo templário,que expressa a necessidade humana de transcender seus instintos básicos,a fim de ascender espiritualmente e cumprir seu papel evolutivo.Ser parte de Deus,até se confundir com Ele,é o sentido da verdadeira humanização.E este era o ensinamento maior dos idealizadores do Gótico,que criaram uma arquitetura viva.Suas catedrais estão tão perfeitamente integradas ao Cosmos,que são praticamente forças da natureza”.

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