sexta-feira, 4 de julho de 2014

Operação Barbarossa 2...



A Batalha no Sul

O Grupo de Exércitos Sul, que passara ao papel principal na tentativa de Hitler de destruir o Exército Vermelho, vinha fazendo até então,campanha mais ou menos obscura. Malograra no intento de conseguir uma penetração rápida e profunda, em parte devido à falta de blindados, pois ele controlava só um Panzergruppe (o n° 1, comandado por Kleist), em parte por estar sobrecarregado por um grupo de divisões-satélites de várias nacionalidades e por uma mistura de equipamentos, na maioria obsoletos. Em ordem ascendente de importância, estas divisões estrangeiras eram;uma divisão motorizada Eslovaca, um corpo motorizado Húngaro (de três brigadas), um corpo expedicionário Italiano (de três divisões), o 4º Exército romeno, com 13 divisões, e outro Corpo romeno, de tropas de cavalaria e de montanha, sob comando Alemão.

Mas o fracasso que colhera na tentada penetração também se devera à largura da frente em que se batia, quase 1000 km, de norte a sul. Além disso, a frente não estava de modo algum mal defendida, pois quatro exércitos Russos cobriam a posição apoiados por quatro corpos mecanizados e mais dois de reserva. Complicada e difícil era também a multiplicidade de objetivos que a “Operação Barbarossa” dera a Rundstedt.A sua ala Norte, carregando o grosso das unidades Alemãs, teria de forçar a fronteira e dividir seu eixo de avanço, o 6º Exército e o Panzergruppe 1 de Kleist avançando para leste, para o Dnieper, abaixo de Kiev, enquanto o 17º Exército se dirigia para sudeste, até o Dnieper, abaixo de Vinnitsa. Então, as duas garras da pinça se encontrariam do outro lado do rio e se fechariam firmes em torno dos Russos cercados por elas. Enquanto isso, a ala Sul, composta do 11º Exército e das formações-satélites, depois de haver protegido o flanco da ala Norte contra qualquer tentativa Russa de realizar manobra de envolvimento, se dirigiria para Leste, romperia a resistência Russa na Ucrânia meridional, se apossaria da costa do Mar Negro e formaria uma frente ao longo do rio Dnieper.

Estes planos eram sem dúvida ambicioso, sobretudo porque o eixo de avanço da ala norte, pelo menos de início, estava bastante restrito, pois se localizava entre os Pântanos do Pripet, ao Norte, e os Cárpatos, ao Sul. Se o General Kirponos, Comandante Russo do Distrito Militar de Kiev, tivesse empreendido bem o plano de cobertura, poderia perfeitamente ter martelado Rundstedt por várias vezes durante a passagem através do apertado caminho que vinha seguindo, e talvez até mesmo o tivesse detido. Mas, como estava acontecendo em outros locais, ele permitiu que as suas forças de cobertura só aos poucos fossem chegando para a batalha desde o primeiro dia, em lugar de agrupá-las para um maciço contra-ataque. Assim, ele assistiria à destruição de todas elas.

A primeira parte de sua idéia era boa, sugerindo que ele estudara a Blitzkrieg Alemã contra a França e sentira a melhor maneira de neutralizá-la – o que, naturalmente, é feito penetrando o flanco das colunas blindadas enquanto estas estão passando, se possível com força blindada igual ou maior. Por isso, ele determinou que os outros três corpos mecanizados que estavam de reserva se juntassem ao seu 22º Corpo Mecanizado em Rovno. Mas, antes que se pudessem concentrar, ele foi obrigado a empenhar o 22º em combate. Esse corpo foi consumido, porque suas guarnições inexperientes e seus veículos obsoletos não eram adversários para os veteranos de Kleist com seus tanques Mark IV. Além disso, quando atacados, os Alemães normalmente faziam o jogo que em breve se tornaria familiar aos esquadrões de blindados Britânicos no deserto ocidental; recuar para atrair o inimigo até uma linha impenetrável de canhões de 88 mm. Foi assim que outro corpo mecanizado de Kirponos, o 15o , que partira para o ataque de sua área de concentração no sul, também foi destruído com rapidez. E quando as três divisões foram trazidas da reserva para a zona de batalha, nos dias 25 e 26 de Junho, também foram seriamente marteladas, obrigadas a ceder terreno e abandonar homens e equipamentos em profusão. Várias dessas perdas se deveram à inépcia da liderança. “O Comissário de Corpo, Vashugin, recebeu ordens de Kirponos para montar um contra-ataque com uma divisão e meia de tranques tiradas do IV Corpo de Vlasov, levou os tanques para um pântano, onde tiveram de ser abandonados. Vashugin suicidou-se”. O Stavka, preocupado com a rapidez com que Kirponos estava acabando com seus blindados, deu-lhe ordem a 30 de Junho, para recuar para a fronteira de 1939, que era fortificada, e “organizar uma defesa vigorosa com ênfase em artilharia antitanque”.

Todavia esta não seria a última tentativa da Frente Sudoeste de amputar a ponta do ataque dos Panzer de Kleist. Na segunda semana de Julho, o 5º Exército, que fora obrigado a recuar da sua posição de cobertura da fronteira para os Pântanos do Pripet meridional, saiu daquela região impenetrável para atacar o Panzergruppe 1 perto de Zhitomir. No mesmo instante, o 6º Exército Russo atacou na direção de Berdichev, ao Norte, tentando unir-se ao 5º. Os Alemães, que em dois anos de conflito haviam desenvolvido táticas gerais consideráveis, puderam escapar desse ataque violento e concentrado, muito embora a princípio estivessem em inferioridade numérica. O tanque T-34, que os Alemães viriam a respeitar, tanto que pensaram em copiá-lo e produzi-lo em massa para suas divisões Panzer, apareceu pela primeira vez nesse contra-ataque. Desta feita, porém, o controle tático defeituoso e o poder de penetração do canhão antiaéreo de 88 mm, disparando com elevação zero, anularam seu efeito. Seriamente maltratado, o 6º Exército recuou para o Sudoeste, enquanto o 5º Exército se retirou novamente para o norte, para os Pântanos do Pripet, onde a sua presença dificultaria seriamente o desenvolvimento da estratégia Alemã nas seis semanas seguintes – apesar do fato de que seu poder de ataque fora muito enfraquecido. As consequências da retirada excêntrica do 5º Exército ainda não estavam claramente visíveis, pelo menos para o Estado-Maior do Grupo de Exércitos Sul, que tinha os olhos voltados para o desenvolvimento Russo à sua frente. Budenny, o brilhante mas teimoso cavalariano que a 10 de Julho Stalin nomeara para comandar a Frente Sudoeste, tendo Nikita Kruschev como seu comissário político, optara pela concentração do grosso das suas forças disponíveis, que aumentavam a cada dia, com os reforços enviados por Stalin, no que ele considerava o setor mais vulnerável e vital da frente de batalha, em dois pontos muito distantes um do outro; Kiev e Uman. Kiev, a capital da Ucrânia, e antiga capital da Rússia, era decididamente o mais tentador desses dois pontos nodais. Todavia, Rundstedt resolveu que ela não deveria ser atacada.As suas razões eram várias, mas coerentes; a Cidade estava fora do eixo principal dos avanços dos dois Grupos de Exércitos, situado mais ou menos numa direção Sudeste, para o Mar Negro e as partes baixas dos grandes rios do Sul da Rússia, o Bug, o Dnieper e o Donetz. Seria preciso importante desvio de forças para investir contra ela e capturá-la, pois a cidade era grande e bem defendida; além disso, essa operação envolveria algumas das divisões Panzer em luta muito cerrada, quando perdiam eficiência, e num momento em que deveriam estar aprofundando a penetração Alemã. Por isso, ele deu ordens para que as duas divisões Panzer mais próximas, as 13ª e 14ª , comandadas pelo General Mackensen, só atacassem se as oportunidades fossem as mais favoráveis.
Enquanto isso, Rundstedt estava sondando uma abertura mais ao Sul. Embora não fosse um general de Panzer (sendo o mais antigo dos Generais, na ativa, do exército Alemão, seu raciocínio tático fora formado muito antes de o tanque haver atingido a maioridade) ele, não obstante, sabia permitir certa autonomia a seus comandantes de Panzer, e quando Kleist o alertou para um ponto vulnerável que percebera na linha russa que protegia a ferrovia principal na frente de Budenny, ele lhe deu permissão para explorá-la. Kleist atravessou-a rapidamente e avançou para Leste, para flanquear as áreas de concentração em torno de Uman, vindo pelo Norte. Apesar da ameaça que esta penetração representava para as forças Russas ali concentradas, Stalin e Budenny continuaram a reforçá-las, ao tempo que se preparavam para desfechar outro dos malfadados contra-ataques que haviam custado tão caro ao Exército Vermelho, no mês anterior. A força destacada para este novo ataque era o 26º Exército, que, com negligência típica dos oficiais de Estado-Maior Russos da primeira Guerra Mundial, permitiu que sua ordem de operações caísse em mãos inimigas. Quando seu contra-ataque começou, a 20 de Julho, os Alemães o dispersaram facilmente, sobretudo devido à imperfeita maneira frontal com que foi desfechado.

A tendência das operações de Kleist começou a tornar-se clara até mesmo para os Russos. Era evidente que ele se dirigia para a ferrovia Kiev-Dnepropetrovsk, cuja posse isolaria Uman pela retaguarda. A 25 de Julho os tanques mais avançados de Kleist entraram em Novo Ukraina, e a 30 do mesmo mês estavam firmemente estabelecidos na ferrovia, entre aquela Cidade e Kirovo, situada ao Norte. O único caminho de fuga, ainda aberto aos 6º , 12º e 18º Exércitos, depois desse golpe, situava-se a Sudeste, ao longo do curso inferior do rio Bug até o Mar Negro, em Nikolaev. Ele oferecia uma oportunidade que os Russos pareciam estar decididos a recusar, e por volta de 3 de Agosto estava claro que eles haviam esperado demais. Schobert, o comandante Alemão da ala direita, ou “Satélite”, do Grupo de Exércitos Sul, depois de conquistar cabeças-de-ponte na outra margem do Bug, conseguira encontrar um modo de flanquear uma decidida força Russa que bloqueava duas das suas próprias divisões e mandou-as descer o rio até Pervomaisk. Foi ali, a 3 de Agosto, que elas entraram em contato com os elementos avançados do 14º Corpo Panzer, que Kleist enviara para o Sul, especialmente para encontrar-se com elas.

A região do Uman transformou-se num bolsão, ou caldeirão (Kessel), como o exército Alemão o chamava. A tarefa seguinte era fechar firmemente seus lados porque, como sempre acontecia com os cordões feitos apenas por unidades blindadas e motorizadas, as posições de bloqueio dos Alemães ainda não eram à prova de fugas. Somente a 8 de Agosto, quando as divisões de infantaria dos 11º e 17º Exércitos finalmente ficaram à frente dos blindados, após dias de marcha em estradas abomináveis e sob um sol escaldante, é que Rundstedt se convenceu de que realizara um cerco igual aos conseguidos pelos exércitos de Bock na Frente Central. As baixas que ele infligira ao inimigo montaram a 15 divisões de Infantaria, 5 Blindadas e 103.000 prisioneiros.

Este sucesso alemão no setor superior da frente do Grupo de Exércitos Sul liberou o setor inferior, o costeiro, para os romenos. O foco mais tentador para o ataque era a base naval de Odessa e, assim, o Stavka decidiu defendê-la até o fim. Começou por ordenar a construção de uma área de defesa com três linhas de profundidade, com instalações para mais de cem batalhões. O 4o Corpo romeno chegou às proximidades da fortaleza no começo de agosto e completou o sítio dessas defesas formidáveis no dia 14 daquela mês. A cidade encontrava-se isolada por terra, mas o sítio, que duraria 64 dias, cobraria baixas insuportáveis para os romenos, que já haviam sofrido pesadas perdas nas lutas da fronteira.

A batalha de Odessa, como acontecia com muitos cercos, viria a transformar-se num caso separado. Em seus primeiros momentos, contudo, teve um efeito crítico sobre a luta em geral na frente de Budenny, pois a decisão do Stavka de concentrar forças dentro das suas linhas representaria sérias dificuldades para a defesa do Bug e do Dnieper. O fato era ainda mais sério porquanto, no mesmo instante, permanecia desguarnecida outra brecha que se abrira ao Norte de Kiev, por volta de meados de julho, quando as Frentes Central e Sudoeste começaram a separar-se sob a pressão Alemã. Kiev, uma vez a mais importante concentração de tropas Russas, em toda a frente de batalha, encontrava-se entre o Báltico e o Mar Negro, estava tentadoramente vulnerável a um cerco duplo.

Stalin e o Stavka, que não desconheciam o risco que corriam de serem isoladas as Frentes Central e Sudoeste, determinaram a criação, a 16 de Agosto, da nova Frente de Briansk, para fechar a brecha entre as duas. O comando da Frente criada foi entregue ao General Yemerenko, embora recebesse apenas dois exércitos de Infantaria, mais a promessa de outros que já haviam enfrentado o inimigo.

Entrementes, o Stavka concedeu a Budenny a permissão que a dias vinha pedindo para retirar todas as suas unidades da margem oeste para leste do Dnieper. O 37o Exército ficaria em Kiev, enquanto o 5º Exército, finalmente liberado da sua vigília no Pripet, e o 14º Exército, uma formação composta de unidades já cansadas de lutar, recebiam ordens para formar uma frente ao longo da linha Kharkov-Konotop-Chernigov, como precaução adicional contra qualquer tentativa dos Alemães de penetrar a brecha entre os Comandos Central e Sudoeste.
Essa ameaça estava em curso, pois Guderian, que já redeslocara seu Panzergruppe para um eixo mais meridional, estava pronto para dirigi-lo rumo a Kiev. Mas, no mesmo dia em que Guderian deixara o Q-G de Hitler, malograda a tentativa de convencê-lo a avançar contra Moscou, Stalin informou a Yemerenko sobre a importância que Stavka dava ao contra-ataque que ele iria desfechar. Stalin falou-lhe dos novos equipamentos que lhe seriam enviados; vários batalhões de tanques T-34 e alguns dos novos foguetes Katyusha, um morteiro de vários canos que disparava projéteis leves, estabilizados por aletas e dotados de grandes ogivas explosivas. A dissolução da Frente Central, a 25 de Agosto, contribuiu com mais dois exércitos para sua ordem de batalha, os 13º e o 21º. Infelizmente, essa dissolução levou Yemerenko a crer que também era responsável pela defesa dos caminhos que levavam a Moscou – uma advertência ambígua de Shaposhnikov, o Chefe do Estado-Maior, quanto às intenções Alemãs, encorajou-o a crer nisso – o que fez que dividisse a força que tinha sob sua direção, enviando a melhor parte da mesma ao que viria a ser uma frente completamente passiva.

A 29 de Agosto, Guderian comunicou, impassível que seu 24º Corpo Panzer fora atacado pelo Sul e pelo Oeste. Ele se referia à abertura da contra-ofensiva de Yemerenko. Embora apoiada pelo grosso da força aérea tática que restava ao Exército Vermelho – cerca de 500 Aviões – ela não chegou a tomar impulso. O 21º Exército, a ponta-de-lança do ataque, foi rapidamente flanqueado pela esquerda e pela direita, respectivamente pelo 4o Exército de Kluge e pelo Panzergruppe 2 de Guderian. Obrigado a recuar apressadamente, ele levou consigo várias das suas unidades de apoio, deixando imensas brechas na frente, através das quais unidades motorizadas alemãs logo começaram a infiltrar-se com rapidez e em grandes números.

Enquanto Guderian penetrava as defesas setentrionais de Kiev, Keist, cujo Panzergruppe realizara um cerco tão bem sucedido em Uman, o estava redeslocando para atacar na direção Norte, em manobra convergente. Enquanto era feita a transferência de tropas, as unidades de reconhecimento do Panzergruppe estabeleceram uma série de pequenas cabeças-de-ponte do outro lado do Dnieper, entre Cherkassy e Kremenchug, setor defendido apenas pelo 38º Exército de Infantaria Russo.A sua frente era longa demais e o equipamento de que dispunha não era próprio para combater os Panzer de Kleist. Além disso, sua retaguarda estava sob ameaça de ataque desfechado por unidades do 6º Exército de Reichenau, que avançava para Leste, depois da Conquista final do bolsão de Uman.

Na última semana de Agosto, portanto, todos os indícios indicavam o cerco iminente de Kiev pelos Alemães e, realizado o cerco, uma catastrófica derrota Russa na Frente Sul. Mas Stalin continuava rejeitando todas as sugestões para que se retirassem as tropas da região ameaçada antes que fosse tarde demais, ou mesmo para que se deslocassem para posições mais defensáveis. Ao contrário, ele procurou aumentar a guarnição da capital Ucraniana, até mesmo com o sacrifício de setores mais sensíveis da frente. Como resultado desta sua determinação, quase um milhão de homens cairiam em mãos alemãs ou escapariam delas por um triz.

Das duas pinças que formavam o avanço de blindados, a do Panzergruppe 2 de Guderian tinha mais distância a percorrer e luta mais árdua pelo caminho. Aliás,o seu avanço em combate foi extraordinariamente arriscado, porque expunha cada vez mais o seu flanco esquerdo a um ataque do leste. Algumas vezes, enfrentou esse risco por distâncias enormes. Se os Russos estivessem suficientemente organizados para desfechar contra-ataques coordenados, poderiam muito bem tê-lo destruído. Mas, por mais ferozmente dispostos que os russo se mostrassem, os sinais da desorganização a que dois meses de combate os haviam reduzido logo se salientavam. Eram espantosas as demonstrações de desorientação apresentadas; a 26 de Agosto, a 3ª Divisão Panzer conseguiu capturar intacta uma ponte de 750 m de comprimento, sobre o rio Desna, em Novgorod Severski. Guderian, no seu relatório estranhamente inexpressivo da operação, descreve o feito, realizado por um tenente do 6º Regimento Panzer, como “surpreendente e muito agradável”. Igualmente notável é a nota de pé de página contida em seu relato dos acontecimentos a 3 de Setembro; naquele dia, os comandantes das 3ª e 17ª Divisões Panzer, Model e o Ritter von Thoma, o primeiro dos quais viria a ser feldmarechal e o segundo seria capturado como comandante do Afrika Korps, foram feridos em ação. Comandar da frente, um hábito desses jovens e “novos” Generais, era muito mais perigoso contra um inimigo que, ao contrário dos Franceses em 1940, dificilmente se entregava.
Durante os 18 dias seguintes o Panzergruppe de Guderian enfrentaria batalha muito confusa esforçando-se quase todo o tempo para vencer não só a oposição inimiga, mas também os obstáculos provocados pelas chuvas fortes: rios transbordantes, pontes inundadas e muitos quilometros de lama líquida que cobria o leito de estradas ruins e escassas. Muitas vezes as suas formações motorizadas moviam-se apenas pouco mais depressa do que as divisões de infantaria do 2º Exército que avançavam para o centro, sobre a Frente Sudoeste à sua direita.

Enquanto Guderian descia do Norte, Kleist, no Sul, estava manobrando seu Panzergruppe, para um eixo convergente.O seu objetivo era assestar seus blindados contra o extremo Norte da grande curva do Dnieper e forçar travessias. Como o rio entre Cherkassy e Kremenchug era defendido apenas por um Exército de Fuzileiros Russos (os exércitos Russos eram menores que os Alemães e não tinham blindados), era improvável que as dificuldades táticas para conquistar cabeças-de-ponte fossem muito grandes. Aliás, somente a 12 de Setembro é que Kleist, por fim, conseguiu garantir uma passagem adequada, destruindo, para tanto, o 38º Exército Russo. A 16 de Setembro, em Lokhvitsa, a 160 km ao Norte de Kremenchug, seus tanques encontraram-se com os de Guderian. Passados alguns dias, as divisões de infantaria dos dois Panzergruppen avançaram para fechar as brechas no cordão blindado. Atrás delas, o 17º Exército, movendo-se para o Norte, à esquerda de Kleist, e o 2º Exército, movendo-se para o Sul, à direita de Guderian, aumentaram a pressão sobre o bolsão de Kiev. Entrementes, o 6º Exército de Reichenau, marchando de Uman para leste, trabalhava para comprimir o bolsão ao longo da sua face ocidental, enquanto que os 2º e 4º Exércitos Aéreos de Kesselring e Löhr infligiam baixas espantosas às grandes massas de soldados Russos.

Por volta de 26 de Setembro, a batalha de Kiev estava praticamente terminada. Naquele dia, o serviço noticioso oficial Alemão anunciou que o bolsão rendera 665.000 prisioneiros, 884 tanques e 3.718 canhões Russos. Cinco exércitos e 50 divisões Russos haviam sido destruídos. Os Russos têm contestado esses números, afirmando que suas perdas totalizaram apenas 175.000. É violento o contraste dos números. Embora a contagem Alemã seja espantosamente grande, os relatórios da época sugerem que sua estimativa é mais convincente do que a Russa.

Mais importante do que as tentativas de computar as baixas é indagar por que o Alto-Comando Russo teria permitido que tantos soldados permanecessem em posições claramente arriscadas durante mais de uma quinzena, antes da queda. Este verdadeiro desastre, tão amargo para os Soviéticos, tem sido, desde o discurso anti-stalinista que Kruschev pronunciou em 1956, motivo de muita discussão pública na União Soviética. Como Comissário Político da Frente Sudoeste, Kruschev é sem dúvida uma testemunha suspeita, sobretudo porque punha sempre em confronto a inepta recusa de Stalin de retirar as guarnições de Kiev com o êxito que conseguiu em evacuar grandes quantidades de equipamento industrial da área ameaçada. Não obstante, é verdade que ele apoiou Budenny nos protestos que fez contra as ordens de Stalin no sentido de resistir – protestos que levaram à “transferência” de Budenny, a 13 de Setembro, para um posto honorário na Frente de Reserva. Mas a remoção de Budenny não calou a oposição expressada pela Frente Sudoeste, que protestava contra as ordens recebidas até o momento em que foi sitiada. Apenas 24 horas depois de completado o cerco é que Stalin cedeu. Foram poucos os que se aproveitaram da medida; muitos dos que tentaram fugir foram mortos ao passar pelas linhas Alemãs, inclusive vários Generais, entre estes Kirponos, o comandante da Frente.

O destino dos soldados Russos capturados fora de Kiev foi lamentável. Alemanha e Rússia não estavam obrigadas pela convenção de Genebra sobre o tratamento dos prisioneiros, embora seja normalmente aceito, em todas as guerras, que um inimigo capturado seja alimentado e agasalhado. O exército Alemão, deliberadamente ou por omissão, não observou esses padrões durante os primeiros meses da “Operação Barbarossa”. Dos quatro milhões de Russos aprisionados entre Junho de 1941 e Fevereiro de 1942, mais de meio milhão morreu só em Novembro de 1941 e Janeiro de 1942. Muitos já haviam sucumbido por negligência ou por ferimentos não tratados. Daí por diante, nenhum Russo se entregava mais, preferindo resistir até a morte.

Inversamente, o soldado Alemão, ciente do medo e do ódio que as notícias que esse tratamento de prisioneiros despertara entre os Russos, muitas vezes também preferiam lutar até a Morte, a correr o risco de ser capturado. A guerra sem quartel, que Hitler desejara, não demorara a tornar-se realidade.

Enquanto a batalha de Kiev prosseguia feroz, outros setores da Frente Sul começavam a ceder ao ataque alemão. Um foco importantíssimo da luta era Odessa, o porto do Mar Negro , que fora atacado pelos Romenos a 5 de Agosto. Ali, os defensores Russos; fuzileiros navais, soldados e marinheiros do Exército Marítimo Especial do General Petrov, que fora criado à pressa, resistiriam até 16 de Outubro e infligiriam 100.000 baixas aos seus sitiantes. Depois da queda da cidade, ela seria incorporada à Romenia, como capital da nova província Romena de Transniestria, distinção esta que, com permitisse a muitos habitantes de Odessa reiniciarem seus agradáveis hábitos pré-revolucionários de vida, mostrou-se muito popular na cidade.
De importância militar muito maior foi a iniciativa do 11º Exército de Rundstedt, então comandado pelo General von Manstein (que se tornaria muito conhecido dos Russos), que pôde fustigar o estuário do Dnieper, entre 21 e 29 de Setembro, e avançar até a garganta da Península da Criméia. Este avanço ameaçou derrubar todas as defesas Russas dos rios meridionais – Donetz e Don – e dos seus grandes centros industriais. Impunha-se então, como problema estratégico importante, saber se Hitler encorajaria Rundstedt a prosseguir na direção que levava, ou se ele ouviria os argumentos favoráveis à renovação do ataque no Centro ou no Norte. Kharkov? Moscou? Leningrado? A decisão sobre as operações contra esta última cidade, o mais palpável de todos os objetivos entregues a um comandante Alemão, vinham-se mostrando tão difíceis quanto quaisquer outras que Hitler tivera de tomar durante toda a campanha, e até então ainda não chegara a uma solução satisfatória do “problema de Leningrado”. E este continuaria destorcendo o raciocínio estratégico de Hitler.

O cerco de Leningrado

Leningrado é indubitavelmente uma capital. O esplendor de seus prédios, as características de suas ruas e avenidas, a sua dramática paisagem urbana, tudo afirma que a cidade foi planejada e construída para servir de sede a um governo. E realmente o foi, pelo Grande Czar, Pedro I, no começo do século XVIII, num local saneado dos pântanos do rio Neva e charcos costeiros do Golfo da Finlândia. Leningrado é também porto de mar, o mais importante da Rússia, e centro do seu poderio naval em águas ocidentais. O traço dominante da cidade é o seu ocidentalismo. Construída por Pedro como a sua “janela” para a Europa de Luís XIV, Leningrado – Ex-Petrogrado, ex-São Petersburgo – era, quando lhe bateu às portas a fúria de Hitler, a mais ocidental de todas as cidades Russas. Suficientemente ocidental para, em 1917, servir de geratriz a uma série de crises políticas de alcance e intensidade jamais vistos na Europa desde a Revolução Francesa – começando com a manifestação de descontentamento na assembléia constitucional e acabando numa revolução completa.

Em 1918, a transferência da sede do governo de Leningrado para Moscou, embora tornasse menor a importância da cidade, não reduziu o orgulho de seus habitantes nem lhes feriu o título de sociedade mais requintada e arejada da Rússia Soviética. Isto tampouco significou que o governo soviético daí por diante desse menos valor a Leningrado ou se preocupasse menos com a sua segurança e com o espírito de seus habitantes do que os tzares com São Petersburgo. O temperamento político da organização partidária de Leningrado – que, na opinião de Moscou, apresentava certa inconstância – era a preocupação perene de Stalin, e em fim da década de 1930 a defesa da cidade se transformaria numa obsessão para ele. Foi por desejar pôr mais distante do mundo exterior a fronteira da cidade, que Stalin fez exigências territoriais inaceitáveis aos Finlandeses em 1939, travando, por isso, guerra com eles e, depois de humilhantes derrotas naquele Inverno, anexando, finalmente, grandes áreas do Istmo da Carélia e da região fronteiriça ao Norte do lago Ladoga. (Este lago, um dos maiores da Europa, está situado imediatamente atrás de Leningrado e quase isola a cidade do interior).

Estas anexações feitas por Stalin, se obedeceram a relevantes razões militares, não levaram em conta a probabilidade de a Finlândia vir a tentar a recuperação do que lhe fora tirado, e o faria quando a Rússia fosse menos capaz de impedi-lo. Em suma, em troca de pequena vantagem concreta, Stalin fizera desnecessariamente um inimigo que, de acordo com as expectativas e simultaneamente com a invasão da Rússia pela Alemanha, mandou seus soldados cruzar a fronteira em Junho de 1941. O exército Finlandês não era grande, mas sabia como derrotar os russos, cujas reservas, de qualquer modo, estavam ocupadas em frentes mais importantes. Além disso, as tropas Finlandesas foram ajudadas por contingentes de tropas Alemãs, em seu flanco Norte, formando o Norwegen Armee, comandado pelo General Dietl e consistindo dos 3º, 26º Corpos e do Corpo de Montanha. Ao todo, seis divisões. Essas tropas desembarcaram no dia 8 de Junho, seguindo-se a mobilização geral da Finlândia, decretada a 16 de Junho, e a declaração de guerra, feita a 25 do mesmo mês.

Os Alemães contavam muito com a ajuda dos Finlandeses, pois acreditavam que estes, assim como eles próprios, ansiavam por desfechar um golpe mortífero contra os Soviéticos. Os acontecimentos, porém, revelariam estarem eles enganados e este respeito. Os Finlandeses estavam de fato ansiosos por combater e satisfeitos por terem, a seu lado os Alemães, mas seus objetivos eram puramente nacionais e muito limitados. Mannerheim, o líder Finlandês, resolvera que tão logo fossem esses objetivos alcançados, o exército Finlandês pararia.

Os objetivos dos Alemães nessa frente, delineados na diretiva da “Operação Barbarossa”, seriam a destruição das forças inimigas que operavam na área do Mar Báltico e a tomada de Leningrado e Kronstadt, a base naval incrustada numa Ilha na foz de Neva. Estas tarefas eram consideráveis, já que a distância da fronteira Leste da Prússia Oriental a Leningrado era de 800 km, distância que cresceria muito se o caminho a seguir fosse pela costa, como exigia o plano. A força destacada para constituir o Corpo de Exércitos Norte fazia dele o mais fraco dos três grupos; 20 divisões de infantaria, distribuídas pelos 16º e 18º Exércitos, três divisões blindadas e três motorizadas pertencentes ao Panzergruppe 4 do General Hoeppner. O que havia de mais extraordinário nesse Grupo de Exércitos era que tanto seu comandante, Ritter von Leeb, como o comandante de um  de seus exércitos, Kuchler, do 18º , haviam sido demitidos por Hitler depois da crise Blomberg-Fritsch, conseguido recuperar as suas graças durante a campanha no ocidente.

O planejamento tático da operação do Grupo de Exércitos Norte era relativamente complicado, pois a conformação do setor do território soviético que ele tinha de atacar tornava improvável que ele conseguisse realizar um cerco importante, ao mesmo tempo que os dois rios, o Niemen e o Dvina, davam aos Russos obstáculos fluviais defensáveis que passavam por sobre a linha de avanço. Ademais, esta linha de avanço era seriamente reduzida, nas proximidades de Leningrado, pelos lagos Peipus e Ilmen, por entre os quais o Grupo de Exércitos Norte teria de dirigir seu ataque final. Havia considerável força Russa para escorar o seu ataque; o 8º , 11º e 27º Exércitos, na fronteira, que, com apoios e reservas, totalizavam 28 divisões de infantaria e três corpos mecanizados, com um efetivo de 1.000 tanques. A Frente Noroeste, à qual essas unidades foram subordinadas tão logo começou a guerra, era comandada pelo Coronel-General Kuznetsov (que mais tarde seria substituído por Voroshilov), um soldado competente, ainda que não fosse excepcionalmente brilhante.

Leeb solucionou o problema do movimento de tropa colocando as formações blindadas no centro da sua frente, com os exércitos de infantaria nos flancos. Entendia que, como não tivesse esperanças de organizar movimentos de pinças em grande escala, deveria tentar destruir a frente Russa com ataques violentos, profundos e repetidos, com blindados, ao longo de uma única linha de penetração. Esperava  que a devastação produzida por estes golpes deixassem os Russos que não tivessem sido atingidos pelos seus blindados tão arrasados, que a infantaria Alemã, seguindo os Panzer o mais de perto possível, pudesse proteger seus próprios flancos, fazer prisioneiros em quantidade e apossar-se de objetivos geográficos importantes. Leeb pretendia levar seu Panzergruppe diretamente sob seu comando, o que significava que ele estaria em contato freqüente com os comandantes de corpo de Hoeppner. Um destes, Erich von Manstein, era um soldados dotado de qualidades que o iriam tornar mundialmente famoso.

Os primeiros objetivos do Panzergruppe além da fronteira da Prússia Oriental eram as pontes sobre o Dvina, o rio mais largo da região costeira do Báltico. (A anexação da Cidade Livre de Memel, feita por Hitler antes da guerra, favorecia muito as travessias do Niemen, o rio que antes delimitava a fronteira leste da Prússia Oriental). Estas pontes situavam-se a 240 km da linha de partida de Hoeppner, por territórios que, embora os russos tivessem tido muito pouca oportunidade de fortificar, desde a anexação da Lituânia e Letônia, em 1940, não obstante formavam poderosa zona defensiva, sobretudo pelo volume de tropa da guarnição russa. Na verdade, a primeira notícia que Hoeppner obteve sobre as possibilidades dessa operação, a 22 de Junho, dava conta de que poderosa coluna blindada Russa vinha ao encontro das pontas-de-lança do seu 56º Corpo Panzer, na junção rodoviária de Kedaynyay, do outro lado da fronteira. Por sua vez, a velocidade do inimigo é que poupara aos Alemães uma colisão frontal: quando os tanques do 56º Corpo chegaram ao local, já a coluna Russa havia passado por ele. Deixando o 41º Corpo Panzer para cuidar da situação ali, Manstein acelerou sua divisão na direção do Dvina. Na manhã de 26 de Junho, os primeiros tanques da 7ª Divisão Panzer invadiram Daugavpils e tomaram suas duas pontes. O avanço constituíra uma realização espantosa, mesmo pelos padrões dos Panzer, pois cobriu pelo menos uns 60 km diários, durante quatro dias. Hoeppner apressou o 41º Corpo que, desde que o 56º Corpo o deixara, cercou e destruiu por completo a força blindada Russa que tanto o alarmara a 22 de Junho. A seguir, ordenou a tomada de cabeças-de-ponte a jusante do local onde estava o 56º Corpo, em Daugvpils. A 1o de Julho isto já estava feito e, por consequência, os Alemães já controlavam 30 km da margem oposta do Dvina.

Usou-se de meios improvisados para trazer combustível e munição suficientes para reabastecer o Panzergruppe para o segundo estágio do seu avanço, iniciado no dia seguinte, 2 de Julho. Os novos objetivos estavam na “pequena ponte terrestre” entre os dois lagos, Peipus e Ilmen, ao longo de uma linha que demarcava a velha fronteira da Rússia com a Letônia, e que provavelmente estaria protegida pela fortificação da “Linha Stalin”. Os três pontos da linha cuja conquista tinha grande importância eram, de norte para sul, Pskov, Ostrov e Opochaka, todos no rio Velikaya, que desemboca no lago Peipus.

O primeiro desses pontos, Ostrov, foi tomado a 4 de Julho, sem qualquer oposição, pois, ao que parece, os russos esperavam que os alemães alinhassem seu avanço mais para o Norte, reunindo por isso seus blindados em torno de Pskov. Quando a desviaram para o Sul, para travar combate com o 41º Corpo, a 5 de Julho, essa força foi quase totalmente destruída: 140 dos seus tanques ficaram perfurados ou queimados no campo de batalha, ao norte de Ostrov. Pskov caiu imediatamente nas mãos do 41º Corpo, enquanto o 56º Corpo avançava sobre Opochka.

O Panzergruppe 4 já percorrera metade da distância na estrada para Leningrado. Neste ponto, porém, seu avanço desenvolvia-se lentamente, em parte devido às dificuldades em manter o fluxo de suprimentos para as unidades avançadas, em parte por duas outras razões mais importantes: uma ampla faixa de terreno “impassável para tanques”, situada ao longo do eixo de avanço das divisões Panzer, e o efeito perturbador da crise do Alto-Comando, em Julho, sobre a direção tática do Grupo de Exércitos Norte.

O terreno em questão era um cinturão pantanoso ao longo da margem oposta do rio Velikaya, na velha fronteira Russo-Lituana. O ponto mais difícil ficava a leste de Opochka, de onde o 56º Corpo Panzer de Manstein devia liderar um ataque na direção de Novgorod, no rio Luga, a linha de defesa mais externa de Leningrado. Várias tentativas feitas para atravessar os pântanos logo provaram a inviabilidade do plano e, por isso, o 56º foi desviado para o Norte, para juntar-se ao 41º Corpo perto de Ostrov. Contudo, ele também estava encontrando certa dificuldade para avançar, dificuldade que aumentaria se as duas formações Panzer tentassem compartilhar do mesmo eixo. Assim, decidiram os Germânicos transferir o 41º Corpo para nordeste, para a costa do Báltico, onde ele abriria nova cabeça-de-ponte sobre o Luga, nos trechos mais firmes dos baixios costeiros. Entrementes, o Corpo de Manstein deveria encarregar-se da cabeça-de-ponte do 41º em Ostrov e dali abrir seu avanço para Novgorod.

O plano não satisfazia a Manstein, que acreditava que, a todo custo, o Panzergruppe devia manter-se unido e ser usado para desfechar um golpe único e vigoroso – pensamento ortodoxo sobre a Blitzkrieg. Mas nem Hoeppner nem Leeb, por mais que simpatizassem com seu raciocínio, tinham liberdade para dar as ordens necessárias. A partir de meados de Julho, Leeb fora instruído para ajudar a avançar a ala esquerda do Grupo de Exércitos Centro, tarefa que envolvia a transferência da infantaria do 16º Exército de seu flanco direito para o setor esquerdo do Grupo de Exércitos Centro. Por sua vez, esta diversão deixava Manstein desprotegido, e Leeb impossibilitado de autorizar qualquer penetração especialmente profunda ou rápida dos seus tanques na direção de Leningrado. Aliás, em fins de Julho, Leeb teve de estipular que qualquer avanço continuado do 56º Corpo de Manstein se realizasse sempre na companhia de poderosa escolta de infantaria, da qual só se desligaria depois de destruir as concentrações Soviéticas que ameaçassem o avanço dos tanques nas vizinhanças do lago Ilmen.

O encontro que se seguiu foi sangrento e exaustivo, sobretudo para a infantaria. No começo de Agosto, Leeb decidiu abandonar a idéia que acalentara e que ainda obsedava os frenéticos líderes das divisões Panzer; um ataque relâmpago contra a cidade de Leningrado. Substituiu a idéia inicial por um projeto de envolvimento duplo da cidade, feito pelos dois corpos Panzer, apoiados nos dois flancos pelos 18º e 16º Exércitos de Infantaria, todos agindo de acordo com os Finlandeses, que avançariam para o Sul, ao longo do Istmo da Carélia, e para Sudeste, rodeando a margem interna do lago Ladoga.

O papel inicial dos Alemães nesse plano consistia em romper o último obstáculo importante na estrada para Leningrado, o rio Luga, que corre para noroeste desde o lago Ilmen até o Golfo da Finlândia. Eles já controlavam cabeças-de-ponte na outra margem, a apenas 96 km de Leningrado. Agora a tarefa era concentrar grandes forças dentro dessas cabeças-de-ponte e esmagar os escalões Russos que guarneciam a linha fluvial. Estas forças, pertencentes à Frente Noroeste, dividiam-se em três setores; Kingisepp, onde três divisões de infantaria estavam postadas; o Luga, defendido por outras três, e o oriental, perto do lago Ilmen, defendido por uma divisão reunida às pressas e por uma brigada de montanha. Além destas, havia também soldados extraviados e unidades fragmentadas, mas que somavam muito duvidoso auxílio à defesa.

Seus efetivos de combate eram realmente baixos e, embora os soldados russos lutassem com a bravura de sempre, quando os Alemães atacaram, a 8 de Agosto, a carência de artilharia e de blindados os colocavam em desvantagem irremediável. Por volta de 11 de agosto o setor de Kingisepp fora praticamente rompido e o comandante da linha fluvial, Popkov, pensava em retirar-se, embora não soubesse para onde e não tivesse retaguarda para protegê-lo. O 56º Corpo de Manstein, que Leeb liberara do flanco direito, dirigia-se para a brecha de Kingisepp e, quando chegasse lá, Popkov não poderia mais escolher entre partir e ficar. Mas, naquele momento, a moribunda defesa russa experimentou um alívio temporário, pois seu 38º Exército, parte da guarnição da fronteira Finlandesa que rumara para o sul, sem direção e ao redor da margem leste do lago Ilmen, apareceu repentinamente no flanco desprotegido do 16º Exército de Leeb, assustando-o seriamente. Embora a força atacante fosse composta principalmente de cavalaria, Leeb mandou que Manstein voltasse prontamente da sua missão a Kingisepp, uma jornada de mais de 160 km que o 56º Corpo acabara de completar. O 38º Exército foi rapidamente repelido e o avanço alemão logo recuperou o ímpeto. Novgorod caiu a 16 de Agosto e Chadovo no dia 20 do mesmo mês. Apesar, porém, da chegada de novo Corpo Panzer (39º) do Panzergruppe 3 – parte da redistribuição de blindados que Hitler ordenara, depois da conferência com Guderian em Rastenburg – o 56º Corpo de Manstein teve tanta dificuldade em avançar quanto o XLI Corpo que, a 21 de Agosto, chegara a Krasnogvardeisk, a apenas 48 km de Leningrado. Leeb decidiu que o corpo, trocando a direção do ataque, se desviasse para o Sul, a fim de juntar-se a Manstein perto de Novgorod, destruindo assim a resistência que impedia o avanço do 56o Corpo e cercando o que lhe parecia ser consideráveis forças Russas ainda em posição no Luga ou prestes a dali se retirarem. Esta junção completou-se a 31 de Agosto e o cerco deu como resultado cerca de 20.000 prisioneiros.

A batalha para sitiar Leningrado chegava agora ao seu estágio final. “Cercar” ainda era o princípio operativo, pois Hitler não dera ordens para capturar a cidade. Mas, mesmo para fazer isto eficazmente, havia necessidade de cooperação dos Finlandeses, que relutavam em cruzar as fronteiras de 1939, as quais haviam recuperado totalmente. A 22 de Agosto, o OKW pediu a Mannerheim que fizesse suas tropas avançar pelo Istmo da Carélia, para flanquear Leningrado pelo norte e unir-se aos Alemães que estavam a leste da cidade. Mannerheim só no dia 27 de Agosto respondeu ao OKW, dizendo encontrar-se preparado para reunir-se aos Alemães no Svir, pequeno rio que corre entre a extremidade Sul do lago Ladoga e o lago Onega, a Leste, mas não iria além desse ponto (o Svir fica logo adiante da fronteira Russo-Finlandesa de 1939). Inteiramente desconcertado, Keitel, do OKW, foi ao encontro de Mannerheim a 4 de Setembro, na esperança de o dissuadir. Mas Mannerheim manteve-se irredutível, argumentando que “não tinha efetivos” para avançar na direção de Leningrado. Embora fosse verdade que a linha da fronteira contava com defesas permanentes, todos viam que ele relutava em atacar por motivos políticos; por mais improvável que pudesse parecer, no momento, que a Finlândia teria um dia de se haver novamente com uma Rússia Soviética renascida, a cautela exigia que os Finlandeses não exigissem da Rússia mais do que esta exigira da Finlândia, no fim da guerra, no ano anterior. É nessas convenções tácitas que se apoiam os acordos internacionais mais importantes.

Assim, o Grupo de Exércitos Norte via-se na contingência de ter de completar o cerco de Leningrado com seus próprios recursos, recursos que a Diretiva n° 35, baixada pelo Führer em 5 de Setembro, diminuiu bastante naquela área, ao estabelecer que a captura de Moscou deveria ser imediatamente considerada medida da mais alta prioridade. Essa mudança de plano – ou reversão ao plano original – implicava a transferência da maior parte dos blindados de Leeb para o Grupo de Exércitos Centro, a fim de acelerar sua arremetida pela rodovia de Moscou. Além disso, a cidade de Leningrado, pelo Sul, estava prodigiosamente bem protegida por três linhas de obstáculos e de posições preparadas. Os Alemães haviam rompido a primeira dessas linhas entre 19 e 21 de Agosto, mas a segunda e a terceira permaneciam. Já de si formidáveis, elas eram constantemente melhoradas pelo povo de Leningrado.

Apesar do poder dessas defesas – formadas de 1.000 km de terraplenos, 650 km de fossos antitanques, 300 km de abatises de madeira, 5.000 casamatas e 600 km de obstáculos de arame farpado – Leeb decidiu tentar um assalto direto, embora ciente de que, com isto, se chocava com os desejos de Hitler, pois ainda que o Führer não tivesse dado a palavra final sobre o futuro de Leningrado – ele falara em obrigar seus três milhões de habitantes a fugir pelo território aberto até as linhas Russas e a morrer de fome dentro da cidade – seu desejo de evitar uma batalha nas ruas era do conhecimento de todos os do nível de Leeb no exército. A partir de 8 de Setembro, o Grupo de Exércitos Norte, já sem a maioria dos seus tanques (o 39º Corpo permanecera com ele, mas o Panzergruppe 4 partira ao encontro de Bock), começou a acossar as linhas russas. Neste primeiro dia ele obteve o seu mais importante êxito, a captura de Schlusselburg, na lago Ladoga, que cortou as comunicações de Leningrado com o resto da Rússia, por terra. Só se podia chegar à cidade pelo lago Ladoga, depois disso.

A partir daí, a luta progrediu com muita lentidão. No dia 11 de Setembro os Alemães conseguiram um ponto de apoio nas colinas de Dudernof, que lhes dava uma vista dominante das “cúpulas e torres douradas” daquele ponto, situado a apenas 12 km do centro da cidade. Mas a luta foi violenta; a 10 de Setembro, uma divisão Panzer teve no comando três oficiais diferentes, em virtude de ferimentos dos dois primeiros. Hitler sentiu-se obrigado a permitir que as divisões Panzer destinadas a Bock ficassem um pouco mais com Leeb. Mas, a 17 de Setembro, ele insistiu no avanço para Leste, e desse momento em diante o ataque alemão perdeu impulso. Os Russos podiam, assim, agradecer a si mesmos e a Hitler por esse golpe de sorte. Eles haviam lutado com extraordinária tenacidade e com o que parecia ser uma total despreocupação com perdas de homens e equipamentos. Como é que sua defesa foi tão bem organizada?

Isto se deveu em parte, ao nível raramente alto de organização política existente na cidade: cerca de 200.000 dos seus habitantes pertenciam ao partido Comunista e 300.000 à Liga da Juventude Comunista, isto é, em cada seis pessoas, uma era iniciada nos métodos partidários de controle administrativo. Muitos outros pertenciam, direta ou indiretamente, à Osoaviakhim. Portanto, havia um grande núcleo de cidadãos controlados, treinados e prontos para cumprir deveres de emergência. Além destes, os operários dos estabelecimentos fabris da cidade encontravam-se já bem organizados, o que dava à liderança partidária local a certeza de poder contar com o apoio de todos, filiados ou não ao partido, na luta contra o invasor.

Uma das primeiras medidas para utilizar a força desse considerável potencial humano, treinado ou não, na defesa da cidade foi tomada a 27 de Junho, quando o Soviete Municipal de Leningrado (equivalente a uma câmara municipal) promulgou um decreto mobilizando toda a população masculina, entre 16 e 50 anos, e feminina, entre 16 e 45 anos, para trabalhos de defesa. Está claro que os números teoricamente postos em disponibilidade por esse decreto eram grandes demais para serem empregados de maneira útil, e o Soviete Municipal, na prática, não convocou a população em massa. Não obstante, o recrutamento mobilizou numeroso contingente e o pôs em ação tão logo se manifestou a ameaça a Leningrado. No começo de Julho teve início a construção do tríplice anel de proteção em torno da cidade. À frente destes, uma linha dupla de fortificações menores já havia sida cavada, tendo sido aumentada durante o período de crise, enquanto que, a partir de agosto, um sistema complicado de barricadas, obstáculos rodoviários e casamatas e pontos fortes ocultos foi construído nos distritos adjacentes da cidade. “Inevitavelmente, os conscritos sofreram as dificuldades impostas pelo trabalho de fortificação. Nem sempre as pessoas nele empenhadas tinham treino e aptidão, por falta de condicionamento físico, para o tipo de serviço a executar. Os trabalhos exigiam de 12 a 15 horas de atividade contínua, dormir em galpões ou sob telheiros e, vez por outra, debaixo do fogo da artilharia inimiga. Aqui e ali repontavam avanços inimigos, e tudo se agitava para contê-lo. A um trabalho completado correspondia uma marcha forçada imediata, de 10 a 20 km, para outro local de construção, de um modo geral  feita sem o auxílio de ferramentas adequadas. As mulheres viam-se a braços com as dificuldades da feitura de pesados obstáculos de concreto destinados à contenção dos tanques. Muitas pessoas careciam de roupas e sapatos adequados para o trabalho. As mulheres com frequência apareciam com roupas e sapatos leves, de verão”. Apesar de tanto desconforto e cansaço, as turmas trabalhavam com entusiasmo, e as fortificações, embora não fossem inteiramente intransponíveis, confinaram a penetração final alemã, até Leningrado, a uma frente estreita demais para lhe permitir o desenvolvimento de um ataque bem sucedido à cidade.

Leningrado, isolada, tinha de fornecer seus próprios recursos para as defesas passiva e ativa e, devido às pesadas baixas sofridas pelas divisões regulares nos arredores da cidade, durante os meses de julho e agosto, as formações organizadas com membros da população viriam a desempenhar papel decisivo na redução da velocidade da carga alemã, e finalmente na sua contenção. Batalhões de Destruição, destinados a atacar pára-quedistas inimigos, foram organizados a partir de 24 de junho, e por volta de 5 de Julho atingiam seus efetivos a 17.000 homens. Contudo, já então estava em vias de organização uma força bem maior, um exército de 200.000 milicianos, organizados em 15 divisões. Este plano mostrou-se excessivamente ambicioso, porque o alistamento de tão grande número reduziria a produção das muitas e importantes fábricas de Leningrado a nível baixíssimo. Mas, entre os dias 5 e 15 de Julho, foram organizadas três divisões – as 1a, 2a e 3a Opolchenie – que, embora destreinadas, mal equipadas e na maioria das vezes comandadas por gente nomeada pelo partido, e que só raramente eram oficiais da reserva, foram lançadas quase que de imediato na batalha. A 19 de Julho formou-se uma quarta divisão.

Pouco depois Voroshilov, o comandante da Frente Norte, decidiu que as futuras divisões Opolchenie teriam o título de “Guardas”, palavra esta de alto prestígio, evocativa, das unidades de elite da Guarda dos tzares, que fora banida desde a revolução. Quatro destas Divisões de Guardas foram formadas entre 24 de Julho e 13 de Agosto, também logo despachadas para a frente, que se aproximava rapidamente da cidade. Mais tarde Stalin aproveitaria melhor a idéia de Voroshilov, conferindo o título de “Guardas” às unidades que tinham sobressaído em ação. Este título se tornaria honra muito cobiçada, e haveria até Exércitos de Guardas.

Mas, apesar de tudo quanto seus habitantes fizeram em defesa da cidade, Leningrado acabou isolada do resto da Rússia. Em meados de Setembro, parecia que os defensores da cidade sucumbiriam ao ataque final alemão. Krasnoe Selo, a Versalhes Russa, caiu a 10 de Setembro, e a 14 do mesmo mês os tanques avançados do 41º Corpo Panzer penetraram o último anel de fortificação nas colinas de Pulkovo e prepararam-se para descer ao coração da cidade.

Depois de muita indecisão, Hitler finalmente chegara à conclusão de que Leningrado não devia ser assaltada. Além de seu tamanho, havia a resistência dos seus prédios, pois, sendo uma cidade de estilo ocidental e construída numa escala monumental, seus prédios públicos e grande parte dos particulares eram de construção muito mais sólida do que os da maioria das cidades russas. Os vários canais da cidade faziam dela um obstáculo militar de primeira ordem e que ameaçava engolfar grandes números de soldados em troca de pequeno resultado material. Não obstante, Leeb, o comandante do Grupo de Exércitos Norte, tentou um golpe de mão entre 6 e 14 de Setembro, cujo primeiro sucesso levou Hitler a suspender a aplicação da Diretiva n° 35, que ordenava a transferência de todos os blindados para o Grupo de Exércitos Centro. Mas o fracasso do golpe, evidente a 14 de Setembro, levou-o novamente a proibir a penetração da cidade. Na sua opinião, bastava que Leningrado estivesse rigorosamente cercada. Intenso bombardeio aéreo e de artilharia iniciaria o arrasamento da cidade, e os habitantes que escapassem aos bombardeios morreriam fatalmente de fome.

De fato, durante o Inverno de 1941-42 quase um milhão de habitantes de Leningrado morreriam de fome, frio ou de doenças provocadas pelas terríveis condições de vida. Apesar da construção de uma “estrada de gelo” sobre o lago Ladoga, foi impossível transportar para a cidade suprimentos suficientes para prover com o mínimo necessário à sobrevivência até mesmo àqueles que estavam na linha de frente. À população de um modo geral, os que desenvolviam atividade de defesa civil, e particularmente aos velhos, que tinham de permanecer em suas casas geladas, a ração de alimento distribuída era puramente simbólica. Apesar de tantas vicissitudes, a população de Leningrado estava determinada a defendê-la a qualquer preço. E foi essa determinação – obrigando os Alemães a engajar forças consideráveis na Frente Norte e a mantê-las por tempo superior ao permitido pelo raciocínio militar mais sensato – o grande agente de frustração do esforço final de Hitler em 1941;a captura de Moscou.
Derrota às Portas de Moscou

Antes da queda de Kiev (15 de Setembro), e antes ainda que Leningrado fosse completamente cercada (8 de setembro), Hitler finalmente cedera aos argumentos – e também às suas inspirações interiores – dos que insistiam que o exército Alemão, ou o Ostheer que formava a sua maior parte, devia abandonar aquilo que parecia, cada vez mais, campanha periférica, nas alas Norte e Sul, e concentrar tudo, reservas, suprimentos e blindados, num avanço final contra Moscou, que, segundo os argumentos, e as inspirações, continuava sendo o grande centro das comunicações militares Russas, a sede do governo civil Russo, o símbolo da resistência Russa. O ataque a Moscou abrigaria os soviéticos, por motivos estratégicos, políticos e emocionais, a concentrar o melhor das forças que ainda lhes restassem na defesa da capital. Os Alemães julgavam, e esperavam, que a batalha que se seguiria destruiria o Exército Vermelho como força combatente, e acabaria com a guerra no leste de um só golpe.

A Diretiva do Fuhrer n° 35, que transmitia a notícia da mudança de opinião de Hitler aos seus comandantes de Grupos de Exércitos, não formulava um conjunto tão amplo de objetivos para a operação. Ela simplesmente dizia que se organizaria um ataque contra o Grupo de Exércitos de Timoshenko (isto é, a Frente Ocidental Russa) e que começaria o mais breve possível, calculado para fins de Setembro. Para dar-lhe o necessário poder de penetração, os Grupos de Exércitos Norte e Sul deviam colocar forças importantes sob o controle de Bock. Essas “forças importantes” eram o Panzergruppe 4, de Hoeppner destacado do Grupo de Exércitos Norte, e o Panzergruppe 2, de Guderian, tirado ao Grupo de Exércitos Sul. Portanto, Bock disporia de três Panzergruppen, os dois mencionados e o Panzergruppe 3, de Hoth, que também havia ajudado no ataque de Leeb a Leningrado. Além dos blindados, Bock teria três exércitos “de marcha”, os 9º, 4º e 2º .

Seu objetivo primeiro seria cercar a maior parte possível do “Grupo de Exércitos de Timoshenko”. A operação se iniciaria com um envolvimento duplo, encontrando-se as duas pinças a leste de Viazma, o que traria os tanques avançados para pouco mais de 160 km de Moscou, sobre a estrada principal que leva à capital, vindo do Oeste. O Panzergruppe 2, de Guderian, ou mais propriamente, seu 2o Exército Blindado (Panzer Armee), como fora rebatizado, tentaria idêntico envolvimento a “Sudeste de Roslavl” (quer dizer, em torno de Briansk), avançando para Nordeste com os seus tanques para unir-se  à infantaria do 2º Exército, que avançaria para Leste. Esses objetivos, ou disposições, receberam forma definitiva na “Ordem de Operação” do Grupo de Exércitos (de codinome “Tufão”), emitida por Bock a 19 de Setembro. Restava apenas reunir a força necessária, de homens e materiais. Mas a tarefa do reforço e, mais ainda, a do abastecimento começavam a ser assediadas por duas dificuldades. As ferrovias, embora operando nas linhas principais até Smolensk e Roslavl, que eram lugares situados atrás da linha de frente, estavam operando com capacidade muito aquém da de tempo de paz. Somente 15.000 km, muito pouco para a área da Rússia Ocidental, foram convertidos para a bitola Européia, e as ferrovias eram vitais para os preparativos da grande ofensiva, já que a Rússia não dispunha de rede rodoviária, nem o exército Alemão tinha os depósitos que lhe teriam permitido acumular suprimentos em quantidades e com a necessária velocidade para cumprir a pauta de Hitler para a batalha. Além disso, neste estágio da campanha, muitos dos caminhões existentes já estavam em estado de conservação ruim, tal como acontecia com boa parte dos veículos blindados, pois as enormes distâncias que foram obrigados a percorrer, em marchas e contramarchas, nas suas missões lhe cobravam elevado tributo. Fazia-se necessário grande quantidade de peças sobressalentes, tendo em vista que as divisões Panzer estavam reduzidas a menos de um quarto dos seus efetivos de tanques.

Contudo, chegaram reforços e suprimentos suficientes para permitir que Bock iniciasse a ofensiva mais ou menos a tempo, a 2 de Outubro. Os Russos que se opunham à concentração de Bock, e que praticamente não contavam com a ajuda de reconhecimento aéreo, foram tomados de surpresa; além disso, como seus efetivos eram consideravelmente inferiores aos que sua ordem de batalha exigiam, começaram logo a ceder terreno. Pertenciam eles a três Grupos de Exércitos: o Ocidental, cujo comando Koniev tirara de Timoshenko desde que a Diretiva n° 35 de Hitler fora emitida; o de Briansk, sob o comando de Yeremenko, e a Frente de Reserva, comandada por Zhukov, que distribuía avaramente os seus reforços. Os golpes vibrados por Bock estavam sendo aparados por 15 exércitos Soviéticos, mas seus efetivos combinados não chegavam a meio milhão de homens, muitos dos quais reservistas ou conscritos recém-saídos de suas aldeias. Apesar de sua organização em profundidade – Zhukov manteve permanentemente quatro exércitos na chamada “Linha de Viazma”, - a defesa russa não era particularmente forte; aliás, sob vários aspectos, que só depois de iniciada a luta se evidenciaram, ela foi organizada de modo a facilitar, e não a resistir, um ataque Alemão bem executado.

A 2 de Outubro teve início o ataque, e logo penetrou a frente Soviética. A 7 de Outubro, segundo testemunho Russo, as principais forças das suas Frentes Ocidental e de Reserva – os 19º , 24º , 30º  e 32º Exércitos – haviam sido cercadas, entre Viazma e Smolensk, pelas velozes alas Panzer da principal concentração de Bock. Zhukov viria a escrever o seguinte sobre a situação do dia 7 de Outubro: “Em essência, todos os caminhos para Moscou estavam abertos”, o que dá bem a medida do desamparo Russo, diante de um ataque Alemão decidido e bem planejado. Os seus soldados cercados, embora tivessem lutado – e continuariam a fazê-lo – com grande coragem dentro do bolsão, careciam da habilidade de montar o único tipo de contra-ataque violento e coordenado que pode desequilibrar um inimigo experimentado e fazê-lo recuar. Aliás, eles também se ressentiam da falta de armas pesadas e veículos blindados.

Simultaneamente, Guderian havia realizado cerco idêntico na metade sul da frente do Grupo de Exércitos Centro, em torno da cidade de Briansk. Uma coluna do seu Panzergruppe 2, dirigida para o norte, para cair sobre Orel, entrou em contato com a infantaria marchadora do 2º Exército a 9 de outubro, deste modo cercando e subjugando completamente dois outros exércitos russos, o 3º e o 13º. Ao todo, nessas duas batalhas – Viazma-Briansk – os Alemães afirmaram ter capturado 657.000 prisioneiros, 1.341 tanques e 5.396 peças de artilharia. Surpreendentemente, os Russos demonstraram, nesse passo da luta, por várias vezes, pouco aguerrimento, rendendo-se com facilidade; e nesta informação do serviço de inteligência é que Hitler viria a basear suas previsões excessivamente otimistas das possibilidades do seu avanço sobre Moscou.

Tivesse “lido” a batalha com espírito receptivo, ele teria encontrado provas de um tipo muito diferente de combatividade dos russos. Guderian, em vista à sua 4ª Divisão Panzer, a 8 de Outubro, após um combate travado no dia 6 daquele mês, quando os tanques T-34 apareceram pela primeira vez contra suas tropas, verificou que “as descrições... da nova manobra tática dos tanques russos eram muito inquietantes. Nossas armas defensivas disponíveis naquele período só tinham êxito contra os T-34 quando as condições eram raramente favoráveis. O canhão de 75 mm de cano curto do Mark IV só era eficaz, contra o T-34, se o pegasse pela retaguarda, assim mesmo se o tiro fosse colocado na grade situada acima do motor, para destruí-lo; era preciso grande habilidade para pôr o Mark em posição que permitisse tal tiro. Os Russos nos atacavam frontalmente com a infantaria, enquanto mandavam seus tanques, em grandes formações, contra nossos flancos. Eles estavam aprendendo”. Mas agourento ainda, anotou ele em seu diário de guerra, a 6 de Outubro, era a primeira nevada do inverno que se aproximava, que logo se derreteu, mergulhando as estradas novamente em uma lama líquida. Nesse estágio da campanha, era difícil identificar o preferível: se um outono prolongado, com suas chuvas que tanto prejudicavam o movimento, ou uma geada prematura que pudesse endurecer o terreno com rapidez suficiente para permitir uma arrancada final para o objetivo.

Do lado Russo, esses indícios encorajadores foram abafados pelo efeito de nova seqüência de desastres. Os dirigentes soviéticos criaram, mais baseados em decreto que na preparação adequada, uma derradeira disposição defensiva, a “Linha de Mozhaisk”, situada a 69 km a oeste de Moscou, e nomearam mais um comandante para a Frente Ocidental – mas desta vez uma autêntica vocação para a atividade da guerra, embora ainda só parcialmente conhecida: Zhukov.

Cavalariano da Guerra Civil e especialista em ataques blindados da campanha Nipo-Soviética, ao novo comandante foi entregue a direção do que todos consideravam apenas uma “defesa frouxa”, no máximo uma retirada estratégica, para reproduzir a denominação que os teóricos lhe aplicavam. Bastante arriscada para se organizar com tropas inexperientes e mal equipadas – Guderian disse que ela era um modo invariável de criar confusão – a estratégia a ser desenvolvida só com a maior das dificuldades é que poderia ser aplicada com os remanescentes destroçados, que era tudo o que lhe restava, de Smolensk e Viazma-Briansk. Contudo, ele vislumbrou no padrão do ataque Germânico motivo de certo alento e esperança. Este lhe parecia menos agressivo no centro, na estrada principal Moscou-Minsk, onde a resistência oferecida pelos seis exércitos cercados no bolsão de Viazma vinha roubando velocidade à progressão do Panzergruppe 4 e do 9º Exército. Nos flancos, o eixo que se dirigia para Kalinin, no Norte, pelo qual se movia o Panzergruppe 3, e em Tula, no Sul – o objetivo de Guderian  - havia forças de cobertura russas ainda organizadas. Portanto, ele ainda tinha esperanças de que essas duas pinças, que ameaçavam cercar Moscou, pudessem ser retardadas até a chegada do inverno – as nevascas deviam começar em seis semanas – e dos reforços para detê-las.

Essa esperança se dissiparia instantaneamente, com os acontecimentos de 14 de Outubro, quando o Panzergruppe 3, de Hoth, penetrou a proteção russa no eixo norte, invadiu Kalinin e atravessou-a na direção do Mar de Moscou, o lago artificial situado a 110 km ao Norte da cidade. Não se pôde evitar que essa notícia, já de si arrasadora para o Alto-Comando, chegasse aos habitantes da capital;a 16 de Outubro e nos dias seguintes, ela disparou um pânico e um exodo que só puderam ser detidos com implacáveis medidas de segurança. Talvez quase meio milhão de moscovitas estavam em trabalhos forçados nas defesas ocidentais nesse momento e, mesmo que quisessem, não poderiam ter batido em retirada. Foi entre os que não estavam em casa, que o moral mais sofreu.

Embora a situação viesse a piorar, o moral da população civil melhorou vigorosamente depois dessa crise. Isto se deveu a muitos fatores, entre os quais se deve incluir o extraordinário discurso de Stalin (Discurso da Santa Mãe Rússia) às tropas reunidas na Praça Vermelha, no aniversário da Revolução de Outubro, que invocou, num estilo que qualquer teórico marxista teria condenado com indignação, todos os heróis nacionais da Rússia, pré, pós e até mesmo anti-revolucionários – numa tentativa calculada, e em grande parte bem sucedida, de persuadir aqueles que o ouviam de que aquela era uma guerra que devia ser travada em defesa da Rússia, por todos os Russos, e não apenas pelo comunismo, pelos membros do partido.

Mas discursos não detêm tanques, e, embora os Panzer estivessem muito espalhados pelo terreno, as pontas-de-lança alemãs continuaram avançando para Moscou ao longo dos flancos Norte e Sul – para Klin e Istra, para Tula e Stalinogorsk. Contudo, segundo os padrões dos Panzer, o movimento era desesperadamente lento, não só porque os russos, ainda que terrivelmente enfraquecidos, os combatiam palmo a palmo, como também porque as estradas continuavam liquefeitas e o terreno, alagado. Somente no começo de novembro é que as primeiras geadas rigorosas do inverno endureceram o terreno o bastante para o Alto-Comando pensar seriamente em organizar sua arremetida final contra as torres e cúpulas do Kremlin, a apenas 60 km de distância.

Eles tinham de levar em conta uma diminuição muito grave no poder de combate das suas forças. Embora as divisões marchadoras ainda conservassem cerca de 65% dos seus complementos, os efetivos de infantaria orgânica das divisões Panzer e motorizadas tinham declinado em 50% - e estes “seguidores de tanques” eram vitais para o progresso dos blindados – enquanto que seus efetivos em tanques haviam diminuído em 65%. Foi pensando nesses números que o Alto-Comando do Exército Alemão se reuniu em Orsha, onde estava o Q-G do Grupo de Exércitos Centro, a 13 de novembro. Estavam presentes Halder, Chefe do Estado-Maior-Geral, e vários chefes de Estado-maior de corpos e de exércitos. A pergunta que Halder lhes fez era simples: deveriam os Alemães prosseguir na ofensiva, ou deveriam aceitar o fato de que a chegada iminente do “General Dezembro” tornava mais sensato parar-se para passar o Inverno? Sodenstern, Chefe do Estado-Maior de Rundstedt no Grupo de Exércitos Sul, foi o primeiro a responder. Defendeu uma parada imediata, pelo menos na Ucrânia, onde as pontas-de-lança Alemãs haviam penetrado muito mais profundamente do que em qualquer outro lugar e corriam o risco de ficar isoladas se não pudessem consolidar o que haviam conquistado. Griffenberg, Chefe do Estado-Maior de Leeb no Grupo de Exércitos Norte, falou em nome de um comando que já se tornara estático. Defendeu também uma parada. Somente o Chefe do Estado-Maior de Bock, Brennecke, apresentaria argumentos favoráveis à continuação da ofensiva contra Moscou, que ele descreveu como necessidade militar e psicológica. E acrescentou: “O perigo de não lograrmos sucesso deve ser levado em conta, mas seria muito pior ficar na neve e no frio, em terreno aberto, a 50 km do objetivo tentador”. Halder concordou. Acontece que Hitler já decidira que o estágio final da ofensiva teria lugar, de modo que a Conferência de Orsha perdeu todo o sentido de execução. Contudo, a divisão de opiniões que ela expressou foi do maior interesse para o Alto-Comando, assim como para os estudiosos da campanha.

O estágio final do avanço sobre Moscou teve início a 16 de Novembro. Para tanto, Bock fez o Panzergruppe 4 recuar através de seu eixo na direção do Panzergruppe 3 (agora comandado por Reinhardt). Isto deixava o 4º Exército de Kluge, que era fraco em blindados, com uma frente mais ampla que antes, e o Panzergruppe 2, de Guderian, praticamente sozinho. A direção-geral do avanço Alemão era para o nordeste, e seu objetivo, evidente para os russos, era cercar Moscou com um envolvimento duplo. Apesar da chegada de alguns reforços do interior, em homens e material, e da eliminação da maioria dos comandantes incompetentes, os Russos a princípio não puderam deter o ataque Alemão em qualquer frente ampla. Em Tula, que Guderian estava, pela segunda vez, tentando capturar, a guarnição pôde rechaçar seu exército para os arredores da cidade, ameaçando-o com perdas que ele preferia não sofrer. Por isso, ele desviou  as suas colunas blindadas para os arredores da cidade e inclinou-se por um golpe dirigido mais num sentido norte, contra as vias de acesso de Moscou. E no flanco Norte, onde os Russos se esforçavam por consolidar uma linha defensiva ao longo do Canal do Volga e do Mar de Moscou, o 9o Exército, entretanto, conseguiu penetrar até a linha do canal, enquanto o Panzergruppe 3 entrou em contato com ela, ao Sul de Dimotrov, mais ou menos ao mesmo tempo, a 27 de Novembro. No dia seguinte, a 7ª Divisão Panzer pôde realmente estabelecer uma cabeça-de-ponte na margem oposta, mas desesperados contra-ataques Russos anularam quaisquer possibilidades de abrir um caminho ali.

O esforço Alemão entrou então em ponto de crise. Em Krasnaya Polyana (a aldeia de Tolstoi), na frente do Panzergruppe 3, eles estavam a apenas 30 km de Moscou; o 4º Exército, com seus postos avançados em Butsevo, encontrava-se a 40 km da cidade; Guderian, a 98 km, ao Sul. Há registros de que as tropas alemãs se aproximariam tanto, nos dias seguintes, que chegariam a ver as torres do Kremlin brilhando à luz do Sol matutino e que algumas patrulhas chegaram a penetrar os subúrbios adjacentes de Moscou. Se conseguiram, essas incursões significaram as últimas energias de um exército que expirava às portas da cidade. O Inverno Russo, com toda a sua crueldade, inimaginável para um Ocidental, desencadeou violento ataque, e as perdas que infligia, somadas às que um Exército Vermelho, já mais resistente e reforçado, causava, detiveram os ataques Alemães, um após outro. O Panzergruppe de Guderian não progrediu mais depois de sua investida contra Kashira, a 25 de Novembro, num último esforço para penetrar a parte leste de Moscou e tomar a cidade pela retaguarda. Dois dias depois, Guderian ordenou a retirada. Após o dia 29 de Novembro não houve virtualmente nenhum movimento de avanço, fosse pelo 9º Exército ou pelo Panzergruppe 3. Bock, escrevendo a Halder a 1º de Dezembro, explicou as dificuldades do seu Grupo de Exércitos. “Depois de outras lutas sangrentas, a ofensiva resultará em ganho restrito de terreno e destruirá parte das forças do inimigo, mas é muito improvável que tudo isso redunde em sucesso estratégico. A idéia de que o inimigo que confronta o Grupo de Exércitos se encontra à beira do colapso é puramente fantástica, pelo que mostra o resultado da luta na última quinzena. Permanecer fora das portas de Moscou, onde os sistemas ferroviário e rodoviário estão conectados com quase toda a Rússia Oriental, significa, para nós, luta defensiva intensa contra um inimigo que apresenta vasta superioridade numérica. Portanto, maior ação ofensiva parece ser insensata e sem propósito, especialmente quando se aproxima o momento em que as tropas estarão totalmente esgotadas fisicamente”.
Aliás, esse momento já havia chegado. Os soldados Alemães das divisões de combate mostravam-se quase incapazes de se moverem quanto mais de combater. A maioria não tinha roupas de Inverno, além de seus capotes, que praticamente não protegiam contra os ventos penetrantes que sopravam da estepe, e era obrigada a usar suas botas justas e com solas ferradas de aço, garantia de enregelamento dos pés. Nos hospitais de campanha, os casos de enregelamento eram mais numerosos que os de ferimento, e porque Hitler proibira a provisão de agasalhos de Inverno, para que os preparativos para uma campanha de inverno não deprimissem o moral, era certo que a incidência dos casos de enregelamento continuaria aumentando. Embora os soldados improvisassem agasalhos, vestindo os uniformes de faxina, feitos de brim, sobre os de serviços, e, entre os dois uniformes, bastante papel amassado, tal improvisação não podia salvar o Ostheer do rigoroso Inverno Russo.

O Exército Vermelho, ao contrário do que sucedia com o Germânico, era bastante ajudado pelo Inverno. Tradicionalmente os meses de frio eram a sua mais destruidora arma contra qualquer invasor, mas a neve e as nuvens também forneciam valioso anteparo que ocultava os trabalhos de reunião de reforços. Até então eles não tinham sido muito úteis, pois não havia reforços disponíveis. Mas de repente estes começaram a aparecer em quantidade e Zhukov os estava reunindo para um contra-ataque que salvaria Moscou. A história de como ele veio a receber essas divisões é fascinante.

A Rússia, mesmo nos tempos de Czares, sempre mantivera um grande exército na Sibéria, para defender as suas fronteiras com a China, Manchúria, Mongólia e Coréia. Fora este exército que combatera os Japoneses em 1904-5. O governo Soviético mantivera e finalmente aumentara esse Exército do Extremo Oriente que, sob o comando do Marechal Blucher, adquiriu status de semi-autonomia e elevado nível de eficiência. Ele viria a combater os Japoneses por duas vezes, em virtude das constantes discordâncias com os Niponicos sobre a demarcação exata da fronteira entre a Mongólia, protegida pela Rússia, e a China, ocupada pelos japoneses. Da última vez, a desavença ganhou proporções muito grandes, dando lugar à batalha de Kholkhin-Gol.

Daí por diante, embora mantivessem relações diplomáticas com os Japoneses, os Russos passaram a vê-los como agressores em potencial e a manter o Exército do Extremo Oriente no mais alto estado de prontidão e muito bem equipado. Seus efetivos sempre estiveram entre 30 e 40 divisões, com poderoso complemento de tanques e aviões, e durante todos os desastres do verão e de começos de outono de 1941 o Exército do Extremo Oriente conservou esses efetivos.

Contudo, a partir de Julho, o Kremlin passou a receber informações de que o Japão realizava preparativos para desfechar uma ofensiva em larguíssima escala e contra objetivos muito distantes do território soviético. Diante disso, passaram a cogitar os Russos da transferência de efetivos da Sibéria para o Ocidente. Esses relatórios partiam de um homem extraordinário, Richard Sorge, agora feito herói (póstumo) da União Soviética, jornalista Alemão Nazista, aparentemente patriota, que trabalhava em Tóquio.

Não há dúvida de que Sorge era Alemão, mas, comunista convicto, durante muitos anos funcionou como agente do Serviço de Inteligência Russo. Revelando muita habilidade, fizera-se amigo do Embaixador Alemão em Tóquio, conseguindo, desse modo, trânsito livre na embaixada Germânica, e, valendo-se dos bons ofícios de um colaborador, frequentava também o gabinete japonês. Desse modo, ele conseguiu informar-se do ataque iminente a Pearl Harbor e transmitir a notícia a Moscou, talvez já a 3 de Outubro. O mais extraordinário – pois a maior dificuldade de um agente talvez seja o problema da credibilidade – é que foram  levados em linha de conta os seus relatórios. Assim é que, a partir de Outubro, primeiramente aos poucos, mas depois em grandes levas, reforços foram transferidos da Sibéria para defender Moscou. Os siberianos, excelentemente treinados e equipados, sobretudo bem agasalhados, chegaram em condições de resistir ao inverno mais rigoroso e a fazer valer a sua presença na defesa da capital.

Com esses esforços, que envolviam cerca de 18 divisões, 1.700 tanques e 1.500 aviões, Zhukov pôde formar três novos exércitos. O 1º de Choque, o 10º e o 20º de Koniev, que comandava a nova Frente de Kalinin, formada com os 22º, 29º e 31º Exércitos, estava resistindo com êxito em torno do Mar de Moscou e do Canal do Volga. Zhukov pretendia lançar suas novas tropas para oeste, de pontos de partida situados ao Norte e Sul de Moscou, e pagar aos Alemães, com a mesma moeda, tudo quanto haviam feito nas batalhas de cerco do Verão.

O plano, que recebeu a concordância dos Estados-Maiores de Campanha e Central, e por fim a de Stalin, estipulava um ataque por três Frentes: Kalinin (Koniev), Ocidental (Zhukov) e Sudoeste (Timoshenko). A Frente de Zhukov faria o esforço principal. Na sua ala Norte, o 1º Exército de Choque e o 20º Exército, ambos novos, dirigiam um ataque, também a ser montado pelos 30º e 16º Exércitos, diretamente contra as posições dos Panzergruppen e tentariam unir-se com os 31º e 29º Exércitos da Frente de Kalinin. A parte central da Frente de Zhukov agiria de forma suficientemente ofensiva para bater as tropas Alemãs que a ela se opusessem, enquanto que a ala sul, o 50º e o 10º Exércitos, em cooperação com a Frente Sudoeste de Timoshenko, atacariam o Panzergruppe de Guderian.

O ataque foi desfechado a 6 de Dezembro, dois dias depois que Kluge, comandante do 4º Exército, decidira abandonar quaisquer esforços ofensivos e um dia depois de Guderian haver tomado a mesma decisão. De início o avanço não foi rápido, mas tomava impulso regularmente. No norte, o avanço mais profundo, no primeiro dia, foi o do 30º Exército de Lelyushenko, que chegou até a rodovia Moscou-Leningrado, ameaçando a ligação do Panzergruppe 3 com o 4º Exército. Por volta de 9 de Dezembro ele chegara a Klin e, com seu 1º Exército de Choque, parecia estar prestes a realizar um cerco. O 16º e o 20º Exércitos, respectivamente comandados por Rokossovsky e Vlasov (o primeiro viria a ser marechal e herói da União Soviética, e o segundo dirigiria um exército emigrado contra sua pátria e morreria tachado de traidor) equilibraram a progressão. Por volta de 13 de Dezembro, essas duas colunas haviam reconquistado Istra..

Ao mesmo tempo, as formações russas opostas a Guderian estavam varando mais promissoramente as posições Alemãs. O 13º e o 40º Exércitos, pertencentes à Frente Sudoeste, de Timoshenko, haviam penetrado a face Sul do arco que o Panzergruppe 3 abrira em novembro, e por volta de 9 de Dezembro passou a ameaçar sua principal linha de abastecimento, a ferrovia Orel-Tula. Entrementes, o 50º e o 10º Exércitos assediavam a face Norte do referido arco, conseguindo aumentar a brecha que haviam feito entre o flanco esquerdo de Guderian e o direito de Kluge. A pressão inexorável resultou num deslocamento constante do 4º Exército de Kluge para oeste, deslocamento que se acelerou depois de 18 de Dezembro, quando o 33º e o 43º Exércitos se juntaram à ofensiva.

As notícias de outras Frentes Russas eram igualmente encorajadoras. No extremo Sul, a 28 de Novembro, o Grupo de Exércitos de Rundstedt (perigosamente superestendido) fora expulso de Rostov-sobre-o-Don, que capturara a 23 de Novembro, deslocando-se com os Russos em seu encalço até o rio Mius, bem a oeste, onde conseguiu estabelecer uma linha para atravessar o Inverno. No Norte, a Frente Kalinin, de Koniev, depois de luta desesperada contra o 9º Exército Alemão, recapturara a cidade que lhe dera o nome, e avançou para o Sul, ao longo da linha do Volga superior, na direção de Rzhev.

Por volta do Natal de 1941, já os Russos haviam recuperado quase todo o território tomado pelos Alemães no último estágio da ofensiva contra Moscou, que, pelo visto, havia fracassado. O próprio Hitler, por certo, era dessa opinião, tanto que a 8 de Dezembro ele emitira a Diretiva do Führer n° 39, que decretava uma posição defensiva na Frente Oriental, como resultado da chegada do Inverno e da “consequente dificuldade em levar suprimentos para lá”. A 17 de Dezembro, sua máquina de propaganda anunciou que a frente talvez tivesse de ser reduzida em alguns lugares. Era o reconhecimento de que estava havendo retirada, e que esta continuaria. Mas Hitler não estava de modo algum disposto a aprovar a retirada como meio de absorver o ímpeto do avanço Russo. Embora muitos dos seus generais lhe viessem implorar permissão para se retirarem para posições onde pudessem abrigar-se melhor e reabastecer suas tropas, Hitler fuzilou a seguinte resposta: “Qualquer concordância por parte do Alto-Comando com uma retirada geral resultaria, inevitavelmente, na repetição dos desastres de 1812, quando o exército de Napoleão fora destruído pelas nevascas e pelos Cossacos”.

Como desconfiasse de que seus comandantes descumpririam a ordem contra a retirada, determinou ele uma série de demissões, a mais importante das quais foi a do Comandante-chefe, Brauchitsch, cujo posto ele próprio assumiu, completando a sujeição do exército ao seu controle pessoal, controle que iniciou em 1934. As outras demissões foram de modo a punir os que lhe haviam falhado em campanha<, Leeb e Bock foram destituídos, assim como Guderian, o mais insubordinado, embora indispensável, dos comandantes de Panzer; Hoeppner também perdeu o comando, enquanto que Rundstedt foi transferido para um posto calmo, no ocidente. Trinta e oito comandantes de corpo ou de divisão foram removidos a um só tempo. Não há registro de expurgo tão dramático de comandantes (fora da Rússia), desde que Joffre destituíra a metade dos seus Generais, em 1914.

O paralelo entre a campanha Francesa de 1914 e a campanha Russa de 1941 pode ser levado mais longe, já que as razões para os primeiros desastres que se abateram sobre os defensores, em ambos os casos, são, em certos aspectos, muito parecidas. O exército Francês e o Russo haviam seguido uma doutrina tática muito defeituosa. Ambos careciam do apoio que as fortificações de fronteira teriam que emprestar a sua defesa (os Russos por estarem ocupando território estrangeiro, distante das fortificações de fronteira, e os franceses por votarem verdadeiro desprezo a posições táticas, por mais fortes que fossem). Ambos deslocavam seus exércitos de um modo que, como careciam de reservas em profundidade, tornava infinitamente mais fácil a tarefa do inimigo.

As razões de recuperação dos dois exércitos também apresentam semelhanças. Ambos fizeram o inimigo estender-se excessivamente, mantendo-se coeso durante toda a longa retirada. Ambos preservaram o moral de seus soldados. Os comandantes desses exércitos fizeram também das capitais de seus países o bastião de onde dispararam o contra-ataque decisivo no momento crítico. Mas, ao ressaltar essas semelhanças, não as queremos levar longe demais. Por muito doloroso que fosse o sofrimento do exército Francês durante a Batalha das Fronteiras e a Retirada para o Marne, em 1914, a extensão de suas dores e o inesperado da recuperação demonstrada não podem ser medidos pelos mesmos instrumentos de avaliação empregados para medir o que se deu com o exército Russo. Quase quatro milhões de soldados Soviéticos caíram prisioneiros dos Nazistas, metade dos quais sucumbiram antes mesmo de iniciada a Batalha de Moscou. O fato de terem os remanescentes do Exército Vermelho encontrado força, e fé, para fazer meia volta, deter e finalmente repelir os invasores alemães dá a medida da enorme resistência do Russo, do seu profundo amor ao seu País e do ódio que os Alemães fizeram despertar no seu peito.

A Batalha de Moscou não seria, porém, nem mesmo o começo do caminho para a vitória. Os Russos teriam ainda de amargar mais um ano de desastres e retiradas antes que pudessem dirigir-se para oeste, para retomar os pedaços calcinados da sua pátria e libertar os sobreviventes da ocupação Alemã.

(Cont.)

2 comentários:

  1. Com generais bem inferiores aos alemães, tipo Timochenko, os russos conseguiram empurrar de volta ao oeste os invasores nazistas.

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  2. É verdade Hierofante,mas com muitas vidas perdidas,pois não tinham o poderia em armamento que os alemães possuiam...apenas mais homens e mulheres!!!
    Obrigada pela visita e pelo comentario,amigo,um excelente Fim de Semana para si!!!

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