quarta-feira, 9 de julho de 2014

Operação Barbarossa 4,Cont...

 
A grande invasão

A breve noite de verão de 21 para 22 de Junho de 1941 – o Solstício de Verão, uma das datas místicas das SS – passou quietamente por toda a extensão da fronteira da Rússia com a Europa ocidental. O expresso Belim-Moscou atravessou-a na hora certa e os postos aduaneiros permaneceram abertos.

Às 03:30 h intensa barragem de artilharia caiu sobre ela, e as tênues defesas avançadas da Rússia desapareceram debaixo de espessa cortina de fumaça. Logo após, a massa inicial de infantaria e de blindados alemães partiu para o ataque. Um Q-G avançado russo comunicou-se com um comando superior:
“Estão atirando contra nós. O que faremos?” “Vocês devem estar loucos”, foi a resposta, “e por que seu comunicado não está em código?”

Contrariamente, porém, à crença geral, os russos não foram tomados inteiramente de surpresa, a 22 de Junho; mais exatamente, os escalões mais graduados não foram. Timoshenko, provavelmente com a aprovação de Stalin, na realidade mandou um aviso de alerta aos Estados-Maiores dos distritos militares, advertindo-os da probabilidade de um ataque alemão ao amanhecer do dia seguinte dando-lhes ordens para que pusessem suas unidades em alerta.

Este aviso chegou tarde demais para que pudessem ser tomadas providências efetivas contra o ataque. Na verdade, a maioria das formações russas não recebeu aviso algum do ataque, e foi vencida em suas posições. Isto não é de surpreender. As defesas das fronteiras, que o Exército Vermelho só começara a fazer em Setembro de 1939 (e, no setor sul, nas antigas províncias romenas, somente em junho de 1940), não estavam organizadas, nem em resistência, nem em profundidade. Resistência e profundidade – mais uma grande reserva para contra-ataque – são essenciais para absorver um assalto blindado, e a Rússia não tinha nada disso. A “Linha Stalin”, embora bastante fortificada em alguns trechos, estava muito atrás da fronteira pós-1939 para poder dar-lhe resistência, fato que era agravado pelo deslocamento que Stalin ordenara ao Exército Vermelho, quase que todo linearmente feito. Contudo, onde quer que as unidades estivessem escalonadas, em qualquer profundidade, o Alto Comando russo as mandava avançar para deter a invasão nos primeiros dias. Esse tipo de decisão fazia apenas o jogo dos atacantes

A estratégia alemã na frente central, ao longo da estrada Minsk-Smolensk para Moscou, era simples: cercar o máximo possível as tropas russas que defendiam a área, isolando sua linha de retirada para leste, sobre os rios Dvina e Dnieper, e destruí-las. Daí por diante, o Grupo de Exércitos Centro deveria apossar-se da “Ponte Terrestre” entre as nascentes do Dvina e do Dnieper (que correm, respectivamente, para o Báltico e para o Mar Negro) e atravessá-la a caminho de Moscou.

A primeira fase do ataque do Grupo de Exércitos Centro passou-se com um sucesso quase enervante. Seu contingente de apoio da Luftwaffe, a Luftflotte (Frota Aérea) 2, destruíra grande quantidade de aviões da Força Aérea Vermelha em terra e quando encontrava oposição no ar, produzia-lhe pesadas baixas. Contra os pilotos e aviões da qualidade e experiência dos da Luftwaffe, os russos, cuja nova geração de caças modernos apenas acabava de entrar em serviço, não eram rivais. Em terra, a sua infantaria, sempre valente, não tinha armas para resistir à penetração das poderosas colunas Panzer; seus fuzis antitanques não podiam penetrar a blindagem de um Mark IV, e seu canhão antitanque de 47 mm – excelente arma, que os próprios alemães mais tarde adotariam entusiasticamente – ainda não havia sido distribuído em quantidade. Assim é que as divisões do Grupo de Exércitos Centro, embora tivessem iniciado suas operações com uma travessia de assalto de rios – o Niemen no setor norte, e o Bug no setor sul da frente – não encontraram  dificuldade alguma na obtenção de um ponto de apoio na outra margem, e em ganhar terreno rapidamente. Brest-Litovsk, a fortaleza de fronteira, onde os alemães haviam ditado a paz para os bolchevistas 23 anos antes, resistiu durante quase uma semana. Contudo, não deteve o avanço, embora bloqueasse importante travessia do Bug, já que os alemães haviam deixado ali apenas uma divisão para entretê-los (praticamente como tinham feito em Maubeuge, a caminho do Marne, em 1914), enquanto construíam uma travessia alternativa mais ao sul.

Essa penetração era muito perigosa para os russos que se encontravam na frente do Grupo de Exércitos Centro, e que formavam os 3º, 4º, 10º e 13º Exércitos, já que a fronteira russa, a fronteira pós-1939 que Stalin insistira em guarnecer cerradamente em toda a sua extensão, dobrava para oeste naquele ponto, encontrando um grande saliente, chamado saliente de Bialystok, em cujo lado oposto havia tropas alemãs que, deslocando-se também da Prússia oriental, criava grave ameaça de cerco para todo o exército russo que estava na zona de operações do Grupo de Exércitos Centro.
A avaliação que von Bock fez dos resultados dos dois primeiros dias de combate levou-o a crer que, para escapar a iminência de cerco, as tropas russas situadas do lado oposto talvez estivessem, por ordem do Alto Comando, abandonando suas posições e fugindo para leste, com a intenção de restabelecer suas defesas no Dvina-Dnieper. Nessa conformidade, ele comunicou ao Alto Comando do Exército (OKH) que os Panzergruppen, em particular o Panzergruppe 3 de Hoth, deveriam abandonar sua missão e fechar a pinça em torno de Minsk – a 320 km das suas linhas de partida – avançando a seguir diretamente para Smolensk sobre o Dnieper, mais outros 200 km adiante. Mas o OKH, temendo o isolamento do Panzergruppe no decurso de tal arremetida – e o isolamento leva à destruição na Blitzkrieg – insistiu para que ele obedecesse à diretiva original: o fechamento da pinça primeiramente em torno de Minsk e, só mais tarde, ao redor de Smolensk. Assim, o Panzergruppe 3 começou a fechar a 24 de Junho.

Era já evidente que os russos, em fuga, não estavam realizando retirada estratégica. Haviam apenas abandonado posições insustentáveis. As novas posições para as quais haviam fugido, entre os braços constritores dos Panzergruppen e as divisões em marcha dos 4º e 9º Exércitos, eram igualmente ruins.

Os russos não podiam vencer em velocidade as colunas blindadas alemãs, que, avançando 80 km por dia, e mais, eram as mais rápidas formações militares do mundo. Todavia, os temores do OKH de que, se tivessem permissão de avançar sem levar em conta suas comunicações com a retaguarda, os Panzer se estendessem excessiva e perigosamente, agora começavam a mostrar-se verdadeiros, pois os russos, apanhados na armadilha e lutando, por isso, desesperadamente, estavam encontrando pontos fracos nos braços da pinça, particularmente no formado pelo Panzergruppe 2, de Guderian, e escapando, através desses pontos fracos, para sudeste. Este desenvolvimento não era nada agradável para o OKH, porque as formações em fuga se dirigiam naturalmente para o Pripet, onde, espreitando do interior daquelas impenetráveis fortalezas, provavelmente se constituiriam em séria ameaça aos escalões de abastecimento alemães, quando estes passassem por ali, dias depois.

A 25 de Junho, diante desses dois perigos – o isolamento de unidades do Panzergruppe 2 e a criação de uma ameaça para a retaguarda do exército – o OKH deu ordens para que os 4º e 9º Exércitos combatessem o inimigo mais de perto. O objetivo disso era obter por meio de bala o que se obtivera pelo efeito moral na luta com os franceses, em 1940 – a destruição da capacidade de resistência do inimigo. Cercados, os soldados russos não se comportavam como os franceses em iguais circunstâncias. Com freqüência, continuavam lutando até a morte.

Assim é que, por volta ainda de 25 de Junho o Grupo de Exércitos Centro sustentava fogo em nada menos de três batalhas de cerco: a de escala menor, em torno da fortaleza de Brest-Litovsk; em torno de Bialystok, onde seis divisões russas haviam sido cercadas no avanço inicial; e em torno de Volkovysk, onde outras seis divisões encontravam-se cercadas.

A 29 de Junho, o Grupo de Exércitos engajou em mais outra batalha de cerco, destinada a subjugar um grande bolsão, logo a oeste de Minsk, e no qual cerca de 15 divisões, algumas refugiadas da fronteira, e outras, reforços vindos do interior da Rússia, haviam sido encurraladas. No dia seguinte, reduzira-se tanto a resistência nos bolsões de Bialystok e Volkovysk, que podiam ser retirados, com segurança, grandes contingentes dos efetivos de infantaria dos cordões que os cercavam; estes poderiam ser enviados para tapar as brechas existentes no laço blindado que se apertava em torno do bolsão de Minsk.

Contudo, somente a 9 de Julho é que o bolsão de Minsk finalmente sucumbiu à pressão alemã, cuja infantaria ainda tinha muita distância a percorrer, pela mais escassa e atroz rede rodoviária, para ajudar os Panzer.
O OKH despachara ordens para o estágio seguinte a 1º de Julho, e, com estas ordens, uma diretiva subordinando os Panzergruppen de Hoth e Guderian a Kluge que, ao entregar seu comando, já designado 2º Exército, ao General von Weichs, passou a comandar o 4º Exército Panzer. As primeiras ordens que recebeu em seu novo posto foram no sentido de preparar seu exército para “penetrar na direção de Moscou”. Nessa conformidade, o Panzergruppe 2 devia  forçar uma travessia do Dnieper ao sul de Smolensk, seguir a linha da rodovia Minsk-Moscou (infelizmente para os comandantes de Panzer, que imaginavam dirigir seus tanques por uma verdadeira Autobahn, grande parte desta ainda era apenas de terra batida) e tomar as Alturas do Yelna, na curva do rio Desna. O Panzergruppe 3, no flanco norte, deveria permanecer no eixo em que estava e prosseguir ao longo do Alto Dvina até Vitebsk, onde deveria atravessá-lo e tomar o terreno ao norte de Smolensk. Os exércitos de infantaria, 2º (ex-4º ) e 9º , insistiriam em seus esforços para se manterem o mais perto possível das pontas-de-lança blindadas. O apoio da Luftwaffe continuaria sendo o mesmo de antes: o Fliegerkorps II apoiando os exércitos no sul e o Fliegerkorps VIII os do braço norte da pinça.

A operação começou a 3 de julho, antes que a infantaria dos dois exércitos em marcha, do Grupo de Exércitos, tivesse tido tempo de esmagar a última resistência russa no bolsão de Minsk. O avanço para Smolensk, de início, foi organizado, forçosamente, como uma operação blindada, mas não demorou que esbarrasse na oposição até então encontrada. O Panzergruppe 2 foi detido quando tentava atravessar o Beresina, perto de Borisov, na principal rodovia Minsk-Smolensk. Pelo menos na opinião do Estado Maior do Grupo de Exércitos  Centro, travessias subsidiárias em Rogachev, no Dnieper e em Polotsk, no Dvina, não ofereciam eixos alternativos aceitáveis para avançar. Esta situação criou problemas muito sérios ao desenvolvimento de operações de Blitzkrieg. Encontraram-se os germânicos diante de duas soluções insatisfatórias: aceitar o atraso e esperar a chegada da infantaria, ou empenhar os blindados num ataque ao estilo da infantaria contra as posições defendidas pelo inimigo. A espera da infantaria acarretaria perda de tempo que o inimigo poderia aproveitar para melhorar suas posições e convocar reservas; mas um assalto ao estilo da infantaria eqüivalia a expor unidades de blindados e motorizadas, altamente treinadas (Panzergrenadier, como em breve seriam chamadas), a baixas que não poderiam ser compensadas com facilidade.

Bock decidiu correr o risco de sofrer baixas, mas, acertadamente, resolveu concentrar os blindados do Panzergruppe 2 antes de tentar o ataque, que seria desviado para o setor de Mogilev, no Dnieper, e arremeteria contra Smolensk, percorrendo estradas secundárias. A qualidade da resistência criada pelos defensores russos dessa linha fluvial vital tornaria mais fácil planejar do que realizar essa missão: somente a 10 de Julho, uma semana depois de iniciada a operação, é que as unidades do Panzergruppe 2 conseguiram obter pontos de apoio na outra margem.

Todavia, já então o Panzergruppe 3 havia conseguido importante penetração no caminho norte para Smolensk, tendo destruído as defesas russas no Dvina e estabelecido importante cabeça-de-ponte em Vitebsk. De tal forma este desenvolvimento pareceu promissor a Bock, que ele, por momentos, pensou em levar boa parte do Panzergruppe 2 a participar na exploração partindo desse ponto. Mas os informes sobre terrenos difíceis fizeram com que ele não desse as ordens necessárias, e quando o terreno ficou seco, já os Panzer de Guderian haviam conquistado sua própria cabeça-de-ponte perto de Mogilev.

Lutas muito duras nas cabeças-de-ponte norte e sul, entre 11 e 13 de Julho, levaram finalmente à verdadeira penetração pela qual Bock, Hoth e Guderian tanto ansiavam. O Panzergruppe 3, de Hoth, foi particularmente rápido em se afastar do rio e pôde colocar uma divisão na estrada Smolensk-Moscou a 15 de Julho. No dia seguinte ele enviou uma divisão à cidade, capturando-a imediatamente, para surpresa sua e dos defensores. Quando as outras pontas-de-lança do Panzergruppe chegaram em Yelan, a 80 km a sudeste de Smolensk, a 17 de Julho, já o novo bolsão estava quase completo. Dentro dele havia grupos de divisões russas – 67 perto de Mogilev, 34 perto de Vitebsk e um grande corpo, de 12 a 14 divisões, a leste de Smolensk. Nenhuma delas poderia ameaçar quase sem munição e praticamente isoladas das fontes de reabastecimento. Contudo, era preciso impedir que escapassem e obrigá-las a se renderem sem demora.

Como acontecera antes, deveria caber à infantaria dos 2º e 9º Exércitos a maior parte do trabalho, mas suas divisões estavam a cerca de 300 km atrás dos blindados avançados, nesse estágio da batalha, em meados de Julho, e não podiam andar mais depressa: o máximo que se podia pedir delas era que percorresse 32 km por dia. Com isso, os cordões, apressadamente feitos com tanques, veículos de meias-lagartas e Panzergrenadieren a pé, não puderam impedir que grupos de soldados russos escapassem para leste. Em certo local;, no vale do Dnieper, vasto trecho do terreno ficara completamente desguarnecido, porque os recursos de Guderian estavam todos empregados em outro local. Por essa brecha, grande número de russos, muitos ainda em unidades formadas, conseguiram escapar. Não se pode dizer que eles tenham escapado para um lugar seguro – porque parte alguma da Rússia Ocidental poderia ser considerada segura no verão de 1941 – mas pelo menos podiam lutar mais uns dias. Somente a 27 de Julho é que pôde ser erguida uma barreira perfeita em torno de todo bolsão, e só a 5 de Agosto é que toda resistência russa dentro dele silenciou.

Isto deveu-se, em parte, ao fato de ter sido a brecha do Dnieper usada, durante o período em que permanecera aberta, não só como meio de fuga, mas também como canal para reforço e abastecimento, o que os alemães demoraram a perceber. Essa descoberta definiu um quadro dado pelo serviço de inteligência, que insinuava que a resposta russa seria muito mais resoluta ao desafio da Blitzkrieg, muito mais do que a que os alemães haviam encontrado no Ocidente. Diante da arremetida alemã e do colapso palpável das suas defesas fronteiriças em quase toda parte, passadas apenas algumas horas – sem falar da quebra do mito das defesas inexpugnáveis e da invencibilidade do Exército Vermelho – a liderança russa não perdera a cabeça. Foi criado um conselho executivo de guerra (GOKO) a 23 de Julho, formado por Stalin, Voroshilov (Comissário da Defesa), Béria (Chefe da NKVD, a polícia Secreta do Estado), Molotov (Comissário de Assuntos Exteriores) e Malenkov (representante de Stalin na máquina partidária). Diretamente subordinado a esta Comissão de Defesa do Estado, surgiu um Estado Maior militar operacional, o Stavka, que, quando da sua reorganização, a 10 de Julho, era formado por Stalin, Molotov e Voroshilov do lado do partido, e por Timoshenko, Budenny, Shaposhnikov, Chefe do Estado-Maior-Geral, e Zhukov, o vencedor da batalha de Kholkin-Gol, contra os japoneses, em 1939. Essa composição mista, de partido e exército, do Stavka era não só uma convenção comunista, como também refletia a reimposição do controle político direto sobre o exército do comando militar. O Comando Duplo (isto é, a divisão de responsabilidades entre oficial e comissário) foi reintroduzido no Exército Vermelho a 16 de Julho.

Outra reintrodução, embora de tradição política mais antiga, foi a execução dos generais fracassados (oficialmente caracterizados como “culpados”): o Comandante da Frente Ocidental, General Pavlov, cujas linhas de defesas tão pouco resistiram ao avanço do Grupo de Exércitos Centro, foi fuzilado no começo de Julho, juntamente com seu Chefe do Estado-Maior e com o Chefe do Serviço de Comunicações. Eles não seriam as últimas vítimas, tampouco as mais graduadas: unidades do NKVD – “destacamentos de segurança de retaguarda” – foram colocadas atrás das linhas de batalha russas para interceptar qualquer um – indivíduos ou unidades formadas – que as abandonasse sem ordem.

Além de providenciar sobre o exercício da autoridade, no nível mais alto e no mais baixo, Stalin e o Stavka também estabeleceram, a 10 de Julho, uma estrutura mais realista de comando em campanha. Três novas Frentes foram criadas (uma “Frente” russa eqüivalia a um Grupo de Exércitos Ocidental), com volume de tropa aproximadamente idêntico ao dos três Grupos de Exércitos alemães que a elas se opunham. O Grupo de Exércitos Sul (Rundstedt) era agora confrontado pela Frente Sudoeste, comandada pelo Marechal Budenny, que, intelectualmente, não se igualava a Rundstedt, mas era uma figura carismática do período heróico do Exército Vermelho da Guerra Civil; para seu comissário político, Stalin nomeou Nikita Kruschev, homem de sua confiança e ex-agente da coletivização na Ucrânia. O Grupo de Exércitos Centro (Bock) passou a receber combate de nova Frente Ocidental, comandada por Timoshenko, e o Grupo de Exércitos Norte, por uma Frente Noroeste, sob o comando de Voroshilov.

Todavia, de toda essa reformulação nada resultou que amenizasse o mais premente problema da Rússia, que era basicamente a falta de pessoal bem treinado na frente de batalha e de equipamento que nas circunstâncias pudesse merecer boa classificação. Em meados de Julho, suas baixas haviam atingido proporções espantosas. Mais de 3.000 aviões de sua força aérea haviam sido destruídos nos cinco primeiros dias. Em terra, as baixas foram maiores ainda: das 164 divisões vermelhas identificadas, o OKH afirmava, a 8 de Julho, ter destruído 89, ou mais de metade. Esses números, que num exame superficialmente realizado parecem exagerados, ganham autenticidade incontrastável diante do que o Grupo de Exércitos Centro demonstrou haver conseguido: a captura de 300.000 prisioneiros, 2.500 tanques e 1.400 canhões, desmantelando virtualmente, no processo, quatro exércitos soviéticos. Na batalha do bolsão de Smolensk, que começara quando Stalin reorganizou seu Alto-Comando, o Grupo de Exércitos Centro fez mais 310.000 prisioneiros, tomando 3.200 tanques e 3.100 canhões. Grande parte do equipamento era de segunda categoria – poucos dos novos tanques T-34 ou KV-I haviam entrado em serviço – mas  o pior é que não restava muita coisa nos arsenais para compensar essas perdas. Quanto às baixas em homens, estas só podiam ser substituídas por convocações das reservas ou das fileiras ainda em treinamento da Osoaviakhim. As formações perdidas eram substituídas através da criação de unidades de Opolchenie, a “milícia do povo”.

Apesar, porém, dos desastres e dos desacertos de grande parte da máquina militar, havia poucos informes de rendições voluntárias em grande escala. O apelo de Stalin para que se travasse uma “Guerra patriótica” calara bem fundo no espírito do povo, tradicionalmente muito ligado às coisas de sua pátria – os soldados russos rendiam-se quando tinham de render-se, e às vezes isso acontecia em grandes números. A maioria dos relatórios alemães da campanha salientam sua pertinaz recusa em depor as armas, só fazendo quando completamente cercados e sem munição.

Mas, para os alemães, no momento, o estado moral russo não era o mais importante. A soma de vitórias conquistadas, o dimensionamento do resultado dessas conquistas tendo em vista o futuro da operação, pois não só o Grupo de Exércitos Centro vinha colecionando resultados, isso tudo chegara a aturdir os germânicos.
O Grupo de Exércitos Norte, o mais fraco dos três, com apenas 20 divisões de infantaria e um só Panzergruppe, o de n° 4, comandado por Hoeppner, recebera como objetivo, na diretiva da “Operação Barbarossa”, a conquista de Leningrado. Tinha também que se apossar da costa do Golfo da Finlândia e destruir as forças russas que fosse encontrando pelo caminho. Como a oposição dos russos ao ataque do Panzergruppe 4, a 22 de Julho, consistia de, apenas, uma divisão de fuzileiros que ocupava uma frente de 65 km, foi-lhe muito fácil penetrar rapidamente as defesas. Marchando em três colunas – o 18º Exército ao longo da costa, o Panzergruppe 3 no centro e o 16º Exército à direita, flanqueando as divisões mais setentrionais do Grupo de Exércitos Centro, ele penetrou rapidamente a Lituânia e, a 30 de Junho, havia conquistado cabeças-de-ponte sobre o Dvina, ao longo do qual deveria estar a “Linha Stalin”. Varando-a, o Panzergruppe, depois de um ou dois movimentos falsos, chegou a Ostrov, do outro lado da fronteira russa, pré-1939, com a Letônia, a 4 de Julho. Dez dias depois, sem se deter diante das concentrações russas com que foi esbarrando, o 41º Corpo do Panzergruppe 4 chegou à linha do Luga, o último obstáculo fluvial importante antes de chegar a Leningrado, situado a apenas 96 km da cidade.

O Grupo de Exércitos Sul, comandado pelo mais ortodoxo e talvez o mais impressionante dos oficiais generais alemães, o Feldmarechal Gerd von Rundstedt, enfrentara, do mesmo modo irresistível, as defesas russas no seu setor, ao sul do Pripet. Esse Grupo de Exércitos era misto, formado de uma massa de manobra setentrional de divisões de infantaria alemãs e de um Panzergruppe, o n° 1, tendo ao sul uma força de divisões romenas e um corpo húngaro. Estas tropas estrangeiras eram mal equipadas com armas francesas, fornecidas durante os anos da Pequena Entente. Cabia a estas divisões-satélites realizar uma penetração a leste dos Cárpatos, e depois marchar paralelamente aos exércitos alemães que avançavam pela estepe da Ucrânia. Seu objetivo era Kiev, um dos mais importantes centros industriais da URSS.

À penetração inicial do setor atribuído ao Grupo de Exércitos, realizado no começo de Julho, seguiu-se um dos poucos contra-ataques em larga escala, montados pelo Stavka durante as primeira semanas do desastre. O 5º Exército russo, que se refugiara no Pripet, e o 6o Exército, que operava na imensa estepe, tentaram, acertadamente em termos de bom senso tático, cortar a cabeça da ponta-de-lança alemã, representada pelo Panzergruppe l, que avançava sobre Kiev em ataques concêntricos. Mas, na prática, as inexperientes formações russas mostraram-se incapazes de conter os alemães, que logo formavam flancos defensivos e, depois de reunir forças suficientes, rechaçavam os atacantes. O esforço russo salvou dois dos seus exércitos – o 12º e o 26º – do cerco, mas não alcançou o objetivo almejado. Ao contrário, mal deteve o avanço do Grupo de Exércitos, cujos Panzer, desimpedidos, tornaram a avançar velozmente, chegando a 16 km de Kiev a 11 de Julho.

Os resultados da luta nas frentes dos três Grupos de Exércitos foram espetaculares. Os Grupos de Exércitos Norte e Sul chegaram à distância que um tanque poderia percorrer num dia, até seus objetivos principais, apenas um mês após o início da batalha. No setor do Grupo de Exércitos Centro, a luta resultara em grandes levas de prisioneiros e em baixas sem precedentes numa guerra, além de bater novos recordes em velocidade de avanço: a 15 de Julho as pontas-de-lança do Grupo de Exércitos Centro estavam a quase 800 km a leste do ponto de onde haviam partido a 22 de Junho. Era natural que esses resultados levassem o OKH e o OKW, na pessoa de Hitler, a crer que a “Batalha da Rússia” estava em quatro semanas praticamente terminada, e que só restava impedir a fuga de mais formações do derrotado Exército Vermelho para o leste. Todavia, ao decidirem como fazer isso e como atribuir tarefas às formações vitoriosas do Ostheer, - o Exército de Leste – seus comandantes viriam a entrar em sérias dissensões.

(Cont.)

 

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