Portugal e a Monarquia

 

 A  vida era dura no final do século XIX. Muito dura.

Mas não era dura por causa da Monarquia. Era dura porque o mundo inteiro era duro.

Portugal era um país pobre. A Espanha era pobre. A Itália era pobre. Grande parte da Europa era pobre. Mesmo países mais industrializados, como a França republicana ou a Inglaterra, apresentavam bairros inteiros de miséria, trabalho infantil, mortalidade elevada e condições de vida que hoje nos chocariam. Não existiam “regimes onde se vivia bem” e “regimes onde se vivia mal”. Existia um nível geral de desenvolvimento humano ainda muito limitado.

A maioria da população vivia da agricultura. A produtividade era baixa. O trabalho dependia da força humana e animal. Não havia electricidade generalizada, não havia água canalizada, não havia saneamento, não havia antibióticos, não havia vacinas eficazes, não havia conservação alimentar moderna. A medicina era rudimentar. A esperança média de vida era curta.

As famílias eram numerosas em toda a Europa, em monarquias e em repúblicas. Sete, oito, nove filhos não eram excepção. Não apenas porque muitos morriam, mas sobretudo porque não existia planeamento familiar, não havia educação sexual, não havia acesso a preservativos, não havia pílula, não havia qualquer cultura de controlo consciente da natalidade. As pessoas tinham os filhos que vinham — como sempre acontecera ao longo da História. Não por escolha ideológica, mas por ausência de conhecimento e de meios.

Os pais trabalhavam de sol a sol.

As mães sustentavam a casa com esforço silencioso e contínuo.

As crianças cresciam depressa demais: cuidavam dos irmãos, ajudavam nos campos, iam trabalhar cedo. Não por falta de amor, mas por necessidade absoluta. A escola era, para muitos, um luxo impossível.

E aqui surge a pergunta honesta: se a pobreza era culpa da Monarquia, porque é que ela não desapareceu com a República?

A Primeira República (1910–1926) não só não resolveu os problemas do país como agravou o atraso existente. Foi um período de instabilidade crónica, com dezenas de governos em poucos anos, golpes sucessivos, violência política, perseguições, crise financeira, desorganização administrativa e incapacidade estrutural de modernizar Portugal. O Estado enfraqueceu. A economia degradou-se. O atraso aprofundou-se.

A Segunda República (Estado Novo) trouxe estabilidade política, mas prolongou e consolidou esse atraso estrutural. Portugal manteve-se largamente rural, pobre, com baixos níveis de escolarização, fraca mobilidade social e poucas oportunidades. A emigração em massa nas décadas de 50 e 60 é prova disso: centenas de milhares de portugueses abandonaram o país porque não viam futuro cá.

Quando se fala em “atraso”, importa esclarecer: não se trata de dizer que Portugal andou para trás no sentido absoluto, mas sim que não conseguiu acompanhar o ritmo de evolução dos países vizinhos e da Europa. Enquanto outras nações avançavam mais depressa na industrialização, na escolarização, nas infra-estruturas e na qualidade de vida, Portugal avançava mais lentamente. O resultado foi um atraso relativo, um afastamento progressivo em relação à média europeia. Não foi estagnação total — foi perda de velocidade num mundo que acelerava.

E isto já não são teorias. São memórias vivas.

Há avós analfabetos.

Há tios e tias que não foram à escola porque tiveram de trabalhar desde crianças.

Há histórias familiares de fome, de frio, de esforço contínuo — tudo isto já em plena República.

Ou seja:

A pobreza não nasceu com a Monarquia.

Não desapareceu com a República.

Atravessou regimes, atravessou décadas, atravessou gerações.

O verdadeiro progresso começa a sentir-se sobretudo a partir da segunda metade do século XX e com maior intensidade após 1974 — não por virtude mágica de um regime, mas porque o país entra finalmente na modernidade: expansão da escolaridade, acesso generalizado à saúde, infra-estruturas, integração europeia, desenvolvimento tecnológico. Portugal beneficia, finalmente, de uma evolução global que durante muito tempo lhe passou ao lado.

Isto revela uma verdade simples e incómoda:

Os regimes políticos não criam riqueza por decreto.

O progresso não nasce de slogans.

A qualidade de vida depende do nível de desenvolvimento científico, económico e cultural de uma sociedade — e esse desenvolvimento foi lento em Portugal durante todo o século XIX e grande parte do século XX, independentemente do regime.

Julgar o século XIX com os olhos confortáveis do século XXI é intelectualmente desonesto. Hoje temos electricidade, água canalizada, saneamento, antibióticos, internet, transportes rápidos, conforto doméstico — e mesmo assim dizemos que a vida é difícil. Imaginar viver sem nada disto exige humildade perante o passado.

A História deve ser compreendida com honestidade, não usada como arma ideológica.

E a honestidade obriga a dizer, com clareza:

a miséria do passado não foi culpa da Monarquia — foi o retrato do mundo daquele tempo e o resultado de um atraso prolongado ao longo de diferentes regimes.

Só quem compreende verdadeiramente o passado consegue construir um futuro com lucidez e dignidade.

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